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Quando o de fora vira de dentro: a dissolução da fronteira emic/etic na experiência contemporânea dos mantras

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No estudo antropológico, existem dois conceitos absolutamente fundamentais para compreender como uma cultura interpreta as suas próprias práticas: as perspectivas emic e etic. A perspectiva emic refere-se à visão interna dos participantes, isto é, à forma como os próprios praticantes entendem, explicam e vivenciam uma determinada prática cultural. Já a perspectiva etic corresponde ao olhar externo do pesquisador, que procura analisar aquela prática a partir de categorias analíticas como linguagem, cognição, ritual, performance, psicologia ou organização social (PIKE, 1967).

Essa distinção, formulada originalmente pelo linguista Kenneth Pike e amplamente difundida na antropologia interpretativa, pressupõe a existência de uma fronteira estável entre dois domínios: o da experiência vivida e o da análise conceitual. Acontece que, no estudo contemporâneo das práticas meditativas, o que se observa é justamente o contrário: essa fronteira está cada vez mais porosa. As interpretações que nasceram como análise externa passam, aos poucos, a ser incorporadas pelos próprios praticantes como parte da sua experiência vivida. E este movimento merece a nossa atenção.

No contexto dos mantras, uma interpretação emic afirma que o mantra desperta kuṇḍaliní, purifica o karma, ativa centros sutis ou produz transformação espiritual. Tais afirmações fazem parte da lógica interna da tradição e da maneira como o praticante vive a sua experiência. A interpretação etic, por sua vez, analisa o mantra como técnica de regulação da atenção, sincronização respiratória, reorganização cognitiva ou indução de estados alterados de consciência. O pesquisador, neste caso, procura compreender os efeitos da prática sem necessariamente assumir a ontologia tradicional que a sustenta.

Historicamente, o universo emic dos mantras articulava-se em torno de conceitos como shakti, vibração sagrada, presença divina, purificação kármica e atuação sobre o corpo sutil. O mantra não era compreendido apenas como linguagem, mas como potência operativa! A sua eficácia derivava da própria estrutura sonora, da repetição ritual, da transmissão iniciática e da integração entre som, corpo, respiração e consciência. Aqui vale lembrar a leitura de Tim Ingold, segundo a qual percepção e conhecimento não são processos que acontecem dentro de um sujeito isolado, mas emergem do engajamento contínuo do praticante com um ambiente saturado de sentido (INGOLD, 2000). O mantra, nesse registro, não é objeto de crença: é modo de habitar o mundo.

Com o desenvolvimento da antropologia, da neurociência, da psicologia cognitiva e dos estudos da linguagem ritual, surgiram interpretações etic que buscavam explicar os efeitos dos mantras em termos não necessariamente religiosos. O mantra passou então a ser descrito como mecanismo de reorganização atencional, estabilização mental, modulação respiratória ou tecnologia cognitiva de transformação perceptiva. Em Frits Staal, o foco desloca-se do significado semântico para a estrutura operacional do ritual, chegando à provocação de que o ritual seria, em si mesmo, sem sentido, sustentado apenas pela sua própria sintaxe interna (STAAL, 1996). Stanley Jeyaraja Tambiah, por seu turno, aproxima a eficácia ritual da performatividade linguística desenvolvida por J. L. Austin, na qual a linguagem não apenas descreve o mundo, ela produz efeitos dentro dele (TAMBIAH, 1968; AUSTIN, 1962).

Aqui, todavia, precisamos fazer uma pausa importante. Quando o pesquisador descreve o mantra como técnica cognitiva, mecanismo de regulação atencional ou tecnologia de transformação perceptiva, ele acredita estar produzindo uma análise neutra, livre de pressupostos religiosos. Talal Asad, em obras como Genealogies of Religion (1993) e Formations of the Secular (2003), nos mostra, contudo, que essa pretensa neutralidade é uma ilusão historicamente construída (ASAD, 1993; ASAD, 2003). As próprias categorias com as quais o antropólogo opera, religião, crença, ritual, experiência interior, símbolo, significado, não são universais nem inocentes; elas foram forjadas dentro de um processo muito específico: a Reforma Protestante e a constituição posterior do secularismo moderno europeu. A Reforma deslocou o eixo da religiosidade do ritual externo, do gesto corporal, do sacramento, da liturgia repetida, para o âmbito da crença interior, da fé pessoal, da consciência individual diante de Deus. Depois, com o iluminismo, esse modelo foi naturalizado e exportado mundo afora como se fosse o paradigma universal do que é conexão com o sagrado.

E aí está o ponto delicado para a nossa discussão sobre o mantra. Quando o discurso etic separa o que o mantra faz no cérebro daquilo que o praticante acredita sobre o mantra, quando distingue mecanismo neurofisiológico de conteúdo simbólico, ou técnica de devoção, ele já está aplicando uma grade conceitual de origem protestante, ainda que esteja convicto da sua neutralidade científica. Essa separação entre exterior técnico e interior emocional, entre corpo objetivamente descritível e fé subjetivamente vivida, não é uma divisão natural da realidade, é um recorte cultural. A tradição mântrica original simplesmente não opera com essa cisão! No mantra, vibração sonora, gesto, respiração, presença divina e estado de consciência formam um continuum indissociável, no qual não faz sentido perguntar onde termina a técnica e onde começa a devoção, onde acaba o corpo e onde começa a crença. O ato de pronunciar ôṁ não é, para o praticante tradicional, nem um exercício respiratório com efeitos colaterais espirituais, nem uma crença subjetiva com efeitos colaterais fisiológicos: é uma operação integral, na qual som, corpo e absoluto se atualizam ao mesmo tempo.

Portanto, quando a ciência contemporânea descreve o mantra como tecnologia cognitiva, ela não está apenas oferecendo uma análise externa, ela está, sem perceber, traduzindo a prática para dentro de um vocabulário que pressupõe a separação protestante entre interior e exterior, entre crença e técnica. E o aspecto mais relevante de tudo isso é que essas interpretações externas não permaneceram confinadas ao meio acadêmico. Elas passaram a circular através de livros, cursos, terapeutas, professores de meditação, podcasts, aplicativos de mindfulness, blogs, discursos de bem-estar e espiritualidade contemporânea, professores de yôga e até mesmo neste blog! Conceitos originalmente etic foram sendo progressivamente absorvidos pelo universo experiencial dos próprios praticantes.

Hoje, é comum encontrar praticantes que afirmam simultaneamente que o mantra ativa chakras, estimula o nervo vago, sincroniza padrões neurais e reduz a atividade mental compulsiva. Esse sincretismo discursivo não é, como se poderia supor à primeira vista, mera confusão categorial ou ecletismo superficial. Trata-se de um modo de subjetivação característico da espiritualidade tardo moderna, no qual o sujeito busca legitimar a sua prática em dois regimes de autoridade ao mesmo tempo: o da tradição, que oferece profundidade simbólica e pertencimento, e o da ciência, que oferece credibilidade epistêmica num contexto secularizado. O praticante contemporâneo não escolhe entre chakra e nervo vago porque, para ele, ambos descrevem aspectos complementares de uma mesma experiência real. A coexistência das categorias não é contradição, é estratégia, ainda que muitas vezes não consciente, de ancorar a experiência em múltiplas camadas de inteligibilidade.

Mais do que uma simples coexistência entre ciência e espiritualidade, o que observamos aqui é uma transformação do significado etic em emic. Aquilo que inicialmente surgiu como interpretação analítica externa passa a estruturar o modo como os próprios praticantes compreendem e experienciam o mantra. O olhar científico deixa de ocupar apenas a posição do observador e passa a integrar o próprio campo da experiência ritual. Eu chamaria esse fenômeno de internalização epistêmica do etic: processo pelo qual categorias analíticas, ao circularem socialmente, deixam de ser ferramentas de descrição e tornam-se condições de possibilidade da experiência descrita.

E aqui a advertência de Asad ganha toda a sua força. Quando o praticante contemporâneo internaliza o vocabulário científico para descrever a sua prática mântrica, ele não está apenas adotando uma linguagem nova; ele está, em alguma medida, importando junto uma forma protestante e secular de organizar a experiência religiosa, agora aplicada a uma tradição que originalmente operava por outra lógica. A cisão entre corpo e crença, entre técnica e devoção, entre exterior mensurável e interior subjetivo, passa a estruturar a vivência mântrica de dentro. Não se trata de dizer que isto é certo ou errado, melhor ou pior. Trata-se de reconhecer que estamos diante de uma transformação profunda na própria gramática da experiência Yôgi contemporânea.

As implicações antropológicas desse processo são consideráveis. Em primeiro lugar, ele demonstra que o universo emic não é fixo nem imutável; pelo contrário, é constantemente reconfigurado pela circulação histórica de saberes, discursos científicos, tecnologias cognitivas e formas contemporâneas de espiritualidade. Em segundo lugar, coloca em xeque a própria operacionalidade da distinção emic/etic como ferramenta analítica, pois, quando o vocabulário do pesquisador retorna ao campo na forma de experiência vivida, e quando esse vocabulário já vinha carregado de pressupostos teológicos historicamente situados, o antropólogo já não observa um exterior puro, e sim um campo no qual a sua própria linguagem, e os pressupostos culturais embutidos nela, estão incorporados. E, em terceiro lugar, sugere que a experiência ritual moderna não é apenas analisada pela ciência: ela passa a ser parcialmente construída através das categorias produzidas por essa mesma análise, num movimento reflexivo que Asad e Ingold, cada um a seu modo, nos ajudam a tornar visível.

Tradição, neurociência, ritual, cognição e performance deixam, assim, de constituir domínios isolados e passam a formar uma trama na qual novas formas de experiência e de significado emergem continuamente. Compreender essa trama exige da antropologia contemporânea não apenas descrever práticas, mas examinar como as suas próprias categorias participam, ainda que involuntariamente, da construção daquilo que ela se propõe a estudar. E exige, sobretudo, a humildade de reconhecer que mesmo o nosso olhar mais “neutro” carrega séculos de história embutidos nele.

Bibliografia

ASAD, Talal. Genealogies of Religion: Discipline and Reasons of Power in Christianity and Islam. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1993.

ASAD, Talal. Formations of the Secular: Christianity, Islam, Modernity. Stanford: Stanford University Press, 2003.

AUSTIN, J. L. How to Do Things with Words. Oxford: Clarendon Press, 1962.

INGOLD, Tim. The Perception of the Environment: Essays on Livelihood, Dwelling and Skill. London: Routledge, 2000.

PIKE, Kenneth L. Language in Relation to a Unified Theory of the Structure of Human Behavior. 2. ed. rev. The Hague: Mouton, 1967.

STAAL, Frits. Ritual and Mantras: Rules Without Meaning. Delhi: Motilal Banarsidass, 1996.

TAMBIAH, Stanley Jeyaraja. The Magical Power of Words. Man, New Series, v. 3, n. 2, p. 175-208, 1968.

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Milton Marino

Professor do DeROSE Method há mais de trinta anos, é médico por formação (FCM Santa Casa – SP) e dirige a unidade Verbo Divino desde 2001.

Em sua trajetória, dedicou-se à pesquisa e prática das Filosofias da Índia e à anatomia, fisiologia e comportamento humano, áreas em que atua com rigor técnico e excelência, tendo ministrado cursos para mais de 2 mil pessoas em Paris, Londres, Lisboa, Buenos Aires, Medellin, São Paulo e Curitiba.Hoje, se dedica ao magistério com o foco no desenvolvimento de instrutores, bem como à escrita de sua obra SwáSthya Yôga Bháshya.