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Home HISTÓRIA DO YÔGA DO “PACKING BREATH” AO VILOMA

DO “PACKING BREATH” AO VILOMA

Como uma técnica moderna ganhou um passado antigo – Parte 1

O Nascimento de uma investigação

Durante uma de minhas aulas semanais da Imersão Filosófica, ministrada a instrutores de Yôga e a praticantes antigos ou avançados, surgiu uma pergunta inusitada: o que eu sabia a respeito das técnicas respiratórias que vinham circulando nas redes sociais?

Entre elas estavam o cyclic sighing, ou suspiro cíclico — uma inspiração seguida de uma segunda tomada de ar, geralmente menor, antes de uma expiração prolongada —, e a cyclic hyperventilation with retention, uma forma de hiperventilação cíclica acompanhada por retenção após a expiração, cuja expressão moderna mais conhecida provavelmente é o método associado a Wim Hof.

A pergunta me surpreendeu por duas razões. A primeira foi a nomenclatura, tão diferente daquela com a qual trabalho há décadas que imediatamente me sugeriu um processo de reempacotamento: práticas respiratórias recebiam novos nomes, eram separadas de seus contextos e reapresentadas como produtos contemporâneos. A segunda foi perceber que, por não acompanhar de perto as redes sociais, eu não sabia que técnicas pouco usuais nos textos do Yôga hindu, sobretudo pelo emprego recorrente da boca como via de expiração, estavam circulando como se constituíssem um novo padrão respiratório e começavam a ser reincorporadas ao próprio universo do Yôga.

Eu sabia que o método de Wim Hof era frequentemente aproximado do tummo tibetano. Contudo, já havia lido algumas vezes o texto sobre a produção do “calor psíquico” reunido por W. Y. Evans-Wentz e não me recordava de encontrar nele aquela expiração rápida pela boca. Minha memória, como pude confirmar depois, estava correta: a obra descreve tanto as respirações suaves quanto as vigorosas pelas narinas e esclarece que, mesmo no momento em que o ar é lançado “como uma flecha”, a expiração ocorre pelas duas narinas (Evans-Wentz, 1999, p. 187–193). Esse pequeno detalhe não eliminava a possibilidade de outras execuções em diferentes linhagens tibetanas, mas já impedia que a respiração bucal fosse apresentada como característica universal do tummo.

Ao mesmo tempo, lembrei-me de um artigo que minha querida amiga e aluna Luciana havia me enviado alguns meses antes. Produzido por pesquisadores vinculados à Stanford University e publicado em 2023 na revista Cell Reports Medicine, o estudo de Balban et al., intitulado Brief structured respiration practices enhance mood and reduce physiological arousal, comparava quatro práticas: mindfulness meditation, cyclic sighing, box breathing e cyclic hyperventilation with retention.

Embora o artigo apresentasse resultados interessantes, sua nomenclatura e a execução das técnicas haviam me causado o mesmo estranhamento. À primeira vista, o cyclic sighing lembrava uma forma bastante reduzida de vilôma pránáyáma; a hiperventilação cíclica com retenção após a expiração parecia combinar elementos de bhastriká com shúnyaka; e a box breathing, com suas quatro fases de igual duração, aproximava-se do nosso chaturanga pránáyáma.

Isso não significava, evidentemente, que fossem as mesmas técnicas. Uma semelhança formal não demonstra identidade histórica, muito menos transmissão direta. Mas as correspondências eram fortes o bastante para suscitar uma pergunta: estaríamos diante de antigas práticas do Yôga traduzidas para a linguagem da pesquisa científica, de reinvenções independentes, de adaptações recentes ou de técnicas modernas que, depois de reformuladas e comercializadas, estavam sendo reincorporadas ao Yôga como se sempre houvessem pertencido a ele?

Foi somente durante a investigação que o suspiro cíclico me conduziu a uma família anterior de exercícios conhecida como Packing Breath. Cyclic sighing e Packing Breath não são nomes equivalentes nem designam execuções perfeitamente idênticas. O segundo, porém, oferecia uma pista histórica surpreendente para compreender como a acumulação de duas ou mais inspirações, seguida por uma expiração longa e repousante, havia circulado entre cultura vocal, ginástica, ocultismo, New Thought e Yôga moderno.

No momento da aula, entretanto, eu ainda não tinha essas respostas. Vi-me diante dos alunos com mais dúvidas do que certezas e decidi iniciar uma investigação paralela: de onde haviam vindo esses termos? Quando essas técnicas apareceram pela primeira vez? Qual era a relação delas — se é que havia uma relação historicamente demonstrável — com o Yôga e com o pránáyáma? E em que momento uma semelhança de execução passou a ser tratada como prova de uma origem antiga?

A pesquisa acabou rendendo esta série de três artigos. Reconheço que o primeiro ficou demasiadamente longo para os padrões de um blog. Ainda assim, tenho a convicção de que, se você me acompanhar até o final, ampliará consideravelmente sua compreensão não apenas dessas técnicas respiratórias, mas da própria história do Yôga moderno, dos processos de apropriação e reapropriação cultural, daquilo que se convencionou chamar de “efeito pizza” e, sobretudo, dos cuidados necessários antes de transformar uma semelhança técnica em continuidade histórica.

A conclusão, antes da investigação

Quando se olha apenas para a forma, o “suspiro cíclico” estudado por Melis Yilmaz Balban e seus colegas — uma inspiração, uma segunda inspiração menor que completa o enchimento dos pulmões e uma expiração prolongada — realmente lembra aquilo que muitos praticantes contemporâneos chamariam de viloma na inspiração. O parentesco visual, porém, esconde uma história terminológica bem menos linear.

A conclusão mais rigorosa a que as fontes permitem chegar é esta: a mais antiga descrição impressa do packing inspiratório que localizei dentro desta linhagem não aparece em um tratado indiano de Yôga, mas em um manual norte-americano de treinamento vocal e físico de 1888. Um ano antes, contudo, Leo Kofler já registrara, no mesmo ambiente de cultura vocal, um repertório aparentado, sobretudo uma expiração fracionada, que ajuda a reconstruir a pré-história técnica, apesar de ainda não ser o packing inspiratório. Genevieve Stebbins lhe deu, em 1892, a forma quase completa que reconhecemos hoje: pequenas inspirações acumuladas sem perda de ar, seguidas por uma expiração longa e repousante. Em 1903, William Walker Atkinson reproduziu uma sequência extraordinariamente próxima, vestiu-a de autoridade oriental e a publicou sob o pseudônimo “Yogi Ramacharaka”. Em 1932, Sri Yogendra incorporou de maneira documentável o Packing Breath de Stebbins a um manual indiano de métodos respiratórios que depois seriam reunidos sob o nome de “Yogendra “Yogendra Práṇáyáma”.

O que ainda não se pode demonstrar é a passagem direta de Stebbins ou Atkinson para Krishnamacharya. No documento divulgado como Yoga Makaranda — Part II, a inspiração interrompida aparece, mas recebe o nome de anuloma, não de viloma; a expiração interrompida é que se chama viloma. Iyengar, décadas depois, ampliaria viloma para abranger a interrupção da inspiração ou da expiração e fixaria internacionalmente o uso hoje familiar. Paralelamente, fontes indianas anteriores e contemporâneas a Krishnamacharya empregavam anulomaviloma ou loma-viloma para outra coisa: a respiração alternada pelas narinas.

Portanto, não há base para dizer simplesmente que “o suspiro cíclico é um antigo viloma comprovado pela ciência”. Há, sim, evidência de uma prática respiratória moderna, transnacional e híbrida, formada na intersecção entre cultura vocal, ginástica, ocultismo, New Thought e Yôga moderno; rebatizada mais de uma vez; e finalmente devolvida ao público global como se sua forma e seu nome sempre tivessem pertencido um ao outro.

Uma semelhança não é ainda uma genealogia

O ponto de partida desta pesquisa foi um artigo publicado em Cell Reports Medicine, no qual quatro grupos praticaram diariamente, durante cinco minutos, meditação de atenção plena ou um de três exercícios respiratórios. No grupo do cyclic sighing, os participantes faziam duas inspirações consecutivas; a segunda geralmente menor; e depois expiravam devagar e por completo. No protocolo, os dois movimentos inspiratórios eram feitos preferencialmente pelo nariz e a expiração pela boca, embora a execução inteiramente nasal também fosse permitida (BALBAN et al., 2023, p. e2, seção “Description of breathing protocols”). Na discussão, os autores destacam como características distintivas “the double inhale” e a expiração prolongada (p. 6).

Quem conhece a terminologia de Iyengar percebe de imediato a semelhança com uma inspiração interrompida. Mas o historiador precisa fazer uma pergunta diferente daquela feita pelo praticante: não “com que técnica atual isso se parece?”, e sim “qual é a sequência documental mais antiga que podemos seguir, e quando o nome atual foi ligado a ela?”. Se começarmos pelo nome viloma, acabaremos projetando para trás uma taxonomia consolidada apenas no século XX. Se começarmos pelo gesto respiratório; acumular duas ou mais entradas de ar sem expirar e depois soltar o ar longamente; aparece outra história.

Uma cautela lateral é necessária a respeito do tummo. O texto tibetano organizado por Evans-Wentz descreve o trabalho respiratório do “calor psíquico” por via nasal e, nas páginas examinadas, não oferece precedente para uma expiração rápida pela boca (EVANS-WENTZ, 1999, pp. 187–193). Uma apresentação contemporânea de instruções da tradição Sakya registra, em uma modalidade específica, que o ar pode ser tomado pela narina esquerda ou pela boca; trata-se de inspiração bucal, não de expiração, e isso não autoriza generalizar que “o tummo se faz pela boca” (DORJI, 2024). Portanto, essa pista não demonstra a origem do padrão respiratório hoje associado a Wim Hof e também não altera a genealogia do packing inspiratório estudada aqui.

1887: Kofler e a pré-história do repertório

Antes de Shaftesbury, há uma peça importante que não deve ser confundida com o próprio packing. Leo Kofler concluiu em 1883 o manuscrito de The Art of Breathing as the Basis of Tone-Production, publicado pela primeira vez em 1887. O exemplar consultado é a quinta edição norte-americana e primeira inglesa, de 1897. O livro pertence ao treinamento vocal e à ginástica respiratória, não ao Yôga.

No exercício II, “The Healthful Lung-Sweeper”, Kofler parte de uma inspiração completa e reparte a expiração em pequenos sopros separados por pausas: “After the first expulsion of air retain the breath a little while” (KOFLER, 1897 [1887], p. 88). A forma se aproxima mais do viloma expiratório posterior do que do packing inspiratório; historicamente, não recebe nome sânscrito nem é atribuída à Índia.

O exercício VIII alterna inspirações pelo nariz e expulsões do ar pelos lábios comprimidos, acompanhadas por movimentos dos braços (pp. 92–93). É um testemunho ocidental precoce do par nariz–boca no treinamento respiratório, mas não equivale ao método Wim Hof: faltam-lhe a organização em séries de hiperventilação e a retenção ao final da expiração. Tampouco oferece evidência de origem tummo.

Kraler situa as práticas de Kofler principalmente na ginástica alemã e francesa e na cultura vocal (KRALER, 2022, p. 149), e julga “quite likely” que Shaftesbury tenha recorrido a ele (p. 290, n. 437). O “limpador dos pulmões” de Kofler também reaparece, com estrutura muito próxima, no “Yogi Cleansing Breath” de Atkinson, embora a passagem direta continue sem documento conclusivo. Kofler, portanto, não desloca a data da primeira atestação do Packing Breath: desloca a pré-história do repertório respiratório que o cercava e expõe uma segunda rota de yoguização.

1888: o natural packing nasce no treinamento da voz

Em 1888, Webster Edgerly, escrevendo sob o nome Edmund Shaftesbury, publicou em Washington Lessons in Artistic Deep Breathing for Strengthening the Voice. O título já situa a obra: não se tratava de um manual de Yôga, mas de respiração profunda para voz, saúde, força e energia. Entre os “exercícios gerais”, Shaftesbury apresentou uma série chamada Natural Packing.

O princípio era encher os pulmões e, sem deixar o ar sair, acrescentar pequenas quantidades por meio de movimentos dos pés, braços e tronco. No exercício 41, por exemplo, o aluno deveria encher os pulmões, abrir os braços e, a cada movimento, “inhale more breath in addition to that already taken”, repetindo o processo cinco vezes e “allowing none to escape” — isto é, “inspirar mais ar além daquele já tomado”, sem permitir que nada escapasse (SHAFTESBURY, 1888, p. 41). Os exercícios seguintes repetem a mesma lógica: acrescentar ar rapidamente, em camadas, sobre uma inspiração já realizada (pp. 42–43).

Este é o primeiro cuidado importante: o natural packing de Shaftesbury ainda não é idêntico ao suspiro cíclico contemporâneo. Ele começa com os pulmões já levados à “máxima capacidade”, adiciona vários pequenos complementos e associa cada um a um movimento corporal. A expiração longa não é o centro do exercício. Mesmo assim, o mecanismo que interessa à nossa genealogia já está claramente impresso: uma inspiração principal seguida de “coberturas” inspiratórias, sem expiração intermediária.

Também é prudente não transformar Shaftesbury em inventor absoluto. A obra é a mais antiga testemunha impressa localizada nesta pesquisa; isso não prova que ele tenha criado o gesto nem que inexistam antecedentes. Prova apenas que, em 1888, a prática já estava codificada e nomeada no universo norte-americano da voz e da cultura física.

1892: Stebbins completa a forma

Quatro anos depois, a atriz, professora de expressão e criadora da “ginástica harmônica” Genevieve Stebbins publicou a segunda edição de Dynamic Breathing and Harmonic Gymnastics. Seu sistema combinava cultura vocal, Delsartismo, ginástica, imaginação mental e uma espiritualidade psicofísica típica do fim do século XIX. No capítulo de exercícios respiratórios aparece The Packing Breath.

Agora a sequência fica muito mais próxima daquela que provocou nossa investigação. Stebbins manda esvaziar os pulmões e então tomar “a succession of little indrawing breaths”, como se a pessoa cheirasse um odor agradável, “packing, as it were, one breath upon another without letting any air escape”. Depois de encher os pulmões, vem a etapa decisiva: “Exhale in one long, gentle, restful breath” — “expire em uma única respiração longa, suave e repousante” (STEBBINS, 1892, p. 87).

Aqui já estão reunidos os elementos essenciais: inspirações curtas e acumulativas; nenhuma expiração entre elas; enchimento progressivo; uma saída de ar única, longa e repousante. Stebbins ainda acrescenta uma visualização característica de seu método: imaginar que se armazena “um vasto estoque de perfume deliciosamente aromático e benéfico à saúde” (p. 87).

Magdalena Kraler, autora da investigação acadêmica mais minuciosa que encontrei sobre a formação moderna do prāṇāyāma, considera plausível que Stebbins tenha tomado a ideia de Shaftesbury, cujos exercícios de natural packing precedem o livro dela em quatro anos; observa, porém, que Shaftesbury não inclui a imagem do perfume (KRALER, 2022, pp. 278–279, n. 416). “Plausível” é a palavra correta: temos anterioridade, proximidade técnica e pertencimento ao mesmo ambiente de cultura vocal, mas não uma confissão de empréstimo feita por Stebbins.

1903: Atkinson transforma o exercício em “ciência yôgi”

O passo seguinte é menos sutil. William Walker Atkinson, escritor norte-americano ligado ao New Thought e ao ocultismo, publicou The Hindu-Yogi Science of Breath sob o pseudônimo “Yogi Ramacharaka”. O exemplar consultado traz 1903 como data; parte da bibliografia acadêmica cita a edição de 1904. A diferença não altera a cronologia: o livro surge aproximadamente onze anos depois de Stebbins e circula como um manual de autoridade supostamente indiana.

No capítulo XII, “Seven Minor Yogi Exercises”, o exercício VII instrui o leitor a sentar-se ou ficar de pé com a coluna ereta e, em vez de inspirar continuamente, fazer “a series of short, quick ‘sniffs’”. O texto prossegue: “Do not exhale any of these little breaths, but add one to the other until the entire lung space is filled”. Depois de uma breve retenção, manda “Exhale through the nostrils in a long, restful, sighing breath” (RAMACHARAKA [ATKINSON], 1903, cap. XII, exercício VII, pp. 61–62; paginação do exemplar consultado).

Em português, a sequência reúne vários pequenos “farejos”, sem expiração entre eles, até completar o enchimento dos pulmões; segue-se uma breve retenção e, por fim, uma expiração nasal descrita como um suspiro longo e repousante. Não é apenas uma semelhança genérica. A ordem das operações, a acumulação sem escape e até os adjetivos “long” e “restful” retomam de perto o Packing Breath de Stebbins.

Kraler não baseia a relação entre os dois autores apenas neste exercício. Ela mostra que Atkinson também emprega a respiração rítmica de Stebbins, com sua proporção e sua dimensão metafísica, e reelabora outras práticas do mesmo livro, entre elas a imaginação de “respirar pelos ossos”. Por isso, conclui que Atkinson emprega o Packing Breath de Stebbins (KRALER, 2022, p. 288). O conjunto de correspondências torna a dependência textual muito mais forte do que uma coincidência isolada.

O gesto decisivo de Atkinson foi a reembalagem. Stebbins não apresentara especificamente o Packing Breath como técnica tradicional indiana. Entretanto, em outro exercício, chamado “Yoga Breathing”, afirma que o nome decorreria de seu uso pelos “Brahmins and Yogis of India” (STEBBINS, 1892, p. 86; cf. KRALER, 2022, pp. 279–280). A diferença em relação a Atkinson, portanto, não é absoluta; reside na extensão e no modo da atribuição orientalista. Stebbins mantinha os dois exercícios separados. Atkinson colocou o packing entre “sete pequenos exercícios yogis” e escreveu como se transmitisse métodos favoritos dos yogis. A técnica não precisou mudar muito para ganhar outra biografia; bastou mudar o narrador, o título do livro e o campo de autoridade ao qual ela era atribuída.

O que está demonstrado e o que ainda é hipótese

Data e fonteForma respiratória ou sentido do termoO que a evidência permite afirmar
1887 — Kofler, p. 88; pp. 92–93Expiração fracionada e ciclos nariz–boca no treinamento vocal; não há packing inspiratórioPré-história do repertório; não desloca a primeira atestação do packing. A ligação com Shaftesbury é provável, não demonstrada
1888 — Shaftesbury, pp. 41–43Inspiração cheia seguida por vários pequenos acréscimos, sem expirar; movimentos corporaisPrimeira atestação impressa localizada nesta linhagem; origem absoluta desconhecida
1892 — Stebbins, p. 87Várias pequenas inspirações acumuladas; uma expiração longa, suave e repousanteForma quase completa; influência de Shaftesbury é plausível, não documentalmente confessada
1903 — Atkinson, pp. 61–62“Farejos” acumulados; breve retenção; suspiro longo e repousanteDependência de Stebbins é fortemente sustentada pela comparação de vários exercícios
1932 — Yogendra, p. 55Adoção do Packing Breath em um manual indiano de métodos respiratóriosEntrada no Yôga moderno indiano documentada por comparação textual (KRALER, 2022, p. 328)
1935/1937 — Yogendra e SivanandaAnulomaviloma / loma-viloma significa respiração alternada pelas narinasNesses autores, os termos ainda designam a alternância nasal; o “or” de Shivananda não constitui sozinho uma taxonomia
s.d., estimado entre 1930–início de 1940 — texto atribuído a Krishnamacharya, pp. 103–105Anuloma: inspiração em etapas; viloma: expiração em etapas; pratiloma: ambasNova distribuição semântica; fonte declarada (Yogakurantam) não pode ser conferida; influência ocidental direta não provada
1981 — Iyengar, pp. 146–151Viloma passa a abranger inspiração ou expiração interrompidaFixação e difusão internacional do sentido hoje mais conhecido

1932: a prática retorna à Índia com Sri Yogendra

Se a pista terminasse em Atkinson, ainda seria possível descrevê-la como mera invenção ocidental à margem do Yôga indiano. Ela não termina. Em Breathing Methods, publicado em Bombay e Nova York em 1932, Sri Yogendra reuniu exercícios oriundos tanto do Haṭhayoga quanto da higiene e da cultura física euro-americanas. Kraler compara as fontes e identifica, na página 55, a adoção do Packing Breath de Stebbins; identifica ainda a “respiração antidispéptica”, a respiração rítmica e elementos da “respiração completa” encontrados em Stebbins, Atkinson e autores de cultura física (KRALER, 2022, pp. 327–329).

Isso é historicamente mais importante do que uma hipótese sobre o que Krishnamacharya poderia ter lido. Yogendra fornece uma ponte documentada. Um pioneiro indiano do Yôga moderno adotou uma técnica de uma autora norte-americana, inseriu-a em seu programa de higiene respiratória e, em publicações posteriores, reuniu exercícios oriundos de Breathing Methods sob a designação “Yogendra Práṇáyáma” (KRALER, 2022, pp. 328, 331–332). A prática não voltou intacta a uma Índia imutável; entrou em um campo indiano que já estava selecionando, traduzindo e reorganizando saberes coloniais e locais.

Este é um caso melhor documentado de circulação transnacional do que a possível influência de Atkinson sobre Krishnamacharya. Também impede uma narrativa simplista na qual um Ocidente ativo “inventa” e uma Índia passiva apenas “copia”. Yogendra tinha sua própria agenda: tornar o Yôga acessível ao chefe de família, apresentá-lo como higiene e ciência e, ao mesmo tempo, reivindicar para ele a autoridade cultural do práṇáyáma. A incorporação foi seletiva e criativa.

Antes de Krishnamacharya, anulomaviloma era outra coisa

Até aqui seguimos a forma da respiração. Agora precisamos seguir o nome.

A respiração alternada pelas narinas é genuinamente antiga. Kraler aponta descrições na Dharmaputriká, aproximadamente do século XI, no Dattátrêyayôgashástra, do século XIII, e em outros textos pré-modernos, geralmente ligadas à purificação dos canais sutis, náḍíshuddhi ou náḍíshôdhana (KRALER, 2022, pp. 72–73). Isso, porém, não torna antiga qualquer técnica moderna que venha a receber um nome semelhante.

O termo técnico composto anulomaviloma aparece no comentário de Brahmánanda à Haṭhapradípiká, a Haṭhapradípikájyôtsná, do século XIX. Em 2.47, ele designa a alternância das narinas e cita o Kúrmapuráṇa (KRALER, 2022, p. 73, n. 92; p. 397). Portanto, o vocabulário existia antes de Krishnamacharya, mas seu referente era a respiração alternada, não a inspiração fracionada.

Sri Yogendra conserva esse sentido em 1935, quando chama de anulomaviloma sua respiração alternada pelas narinas (YOGENDRA, 1935, p. 73; apud KRALER, 2022, p. 334). Swami Shivánanda oferece uma confirmação ainda mais clara dois anos depois.

1937: Sivananda como caso de controle

Na primeira edição de Practice of Bhakti-Yoga, de 1937, Shivánanda apresenta uma única seção com três linhas de cabeçalho: “Easy, Comfortable Pranayama”, “(Sukh Purvak)” e, logo abaixo, “Lom-Vilome” (SIVANANDA, 1937, p. 201). O exercício descrito em seguida consiste em inspirar pela narina esquerda, reter, expirar pela direita; depois inspirar pela direita, reter e expirar pela esquerda (pp. 201–202).

Em The Science of Pranayama, publicado pela primeira vez em 1935, o corpo do livro chama a mesma alternância de “Easy Comfortable Pranayama (Sukha Purvaka)” (SIVANANDA, 2000 [1935], p. 36). Na seção de perguntas e respostas aparece a formulação “While doing Sukha-Purvaka or Loma-Viloma Pranayama…” (p. 132). O or põe os nomes em alternativa naquela frase, mas, sozinho, não constitui uma definição sistemática. Lido em conjunto com a descrição técnica de 1935 e com a unidade tipográfica da seção de 1937, o uso sustenta a conclusão prudente: em Shivananda, loma-viloma designa a respiração alternada com retenção, não a inspiração ou a expiração em degraus.

Esse caso de controle é valioso porque Sivananda escreve aproximadamente no mesmo período em que A. G. Mohan estima ter sido composto o documento chamado Yoga Makaranda — Part II. Dois projetos de Yôga moderno empregam palavras aparentadas, mas não com o mesmo significado. A terminologia ainda estava em movimento.

Krishnamacharya muda o dicionário

Chegamos então ao documento mais intrigante e mais problemático da história. A. G. Mohan divulgou um manuscrito em inglês como Yôga Makaranda — Part II, atribuído a T. Krishnamacharya. Em sua nota editorial, Mohan diz que o documento “parece ter sido escrito durante os anos 1930 e o início dos 1940” e que usou o manuscrito em suas aulas nas décadas de 1970 e 1980 (MOHAN, “About this Document”, p. 1). Não há, contudo, data original segura; Kraler observa que familiares e representantes do Krishnamacharya Yôga Mandiram contestam aspectos da atribuição e pede que os metadados do texto sejam investigados com maior profundidade (KRALER, 2022, pp. 457–458). Convém, portanto, falar em “texto atribuído a Krishnamacharya”, não em uma edição datada e indiscutível.

Nas páginas 103–104, o documento afirma que os métodos anuloma, viloma e pratiloma são descritos “diferentemente” no Yôgakurantam. Em seguida, define-os:

  • em anuloma, a inspiração “is taken in steps”, com pequenas retenções entre os segmentos, enquanto a expiração permanece uniforme;
  • em viloma, a inspiração é uniforme, mas a expiração é interrompida por retenções com os pulmões vazios;
  • em pratiloma, inspiração e expiração são ambas realizadas em etapas (KRISHNAMACHARYA, s.d., pp. 103–104).

Essa distribuição é surpreendente para quem aprendeu pela nomenclatura posterior de Iyengar. No texto atribuído a Krishnamacharya, aquilo que hoje costuma ser chamado “viloma na inspiração” seria anuloma. Viloma é especificamente a expiração fracionada. O documento ainda usa as mesmas palavras com outros sentidos quando trata de ujjāyī e bhastrikā, alternando vias nasais e glóticas (pp. 91–93, 97–99). Longe de um vocabulário antigo e estável, encontramos um laboratório terminológico.

E de onde viria essa classificação? O texto responde: do Yogakurantam, também chamado Yoga Kurunta ou Yoga Korunta na literatura posterior. O problema é que nenhum manuscrito verificável dessa obra foi localizado. Kraler resume duas possibilidades: o texto poderia ter existido e se perdido, ou poderia pertencer ao que ela chama, seguindo Singleton e Fraser, de uma “tradição textual imaginativa” empregada para reinscrever inovações no horizonte de uma autoridade antiga (KRALER, 2022, p. 397, n. 615).

É exatamente aqui que a investigação deve resistir à tentação do “caso encerrado”. Kraler chama a atenção para o fato de que a inspiração interrompida já havia sido descrita por Shaftesbury, Stebbins e Atkinson, mas escreve que a influência clara desses autores sobre Krishnamacharya “cannot be determined at the present state of research” — não pode ser determinada no estado atual da pesquisa (KRALER, 2022, p. 398). A semelhança existe; a cronologia permite o empréstimo; Atkinson circulou amplamente na Índia; Yogendra prova que exercícios do mesmo circuito foram absorvidos por pioneiros indianos. Falta, porém, a peça que transformaria plausibilidade em transmissão: citação, exemplar anotado, testemunho, programa de curso, carta ou intermediário identificável.

Mas e qual o papel de Indra Devi?

A biografia de Indra Devi acrescenta um indício sedutor. Ainda adolescente, Eugenie Peterson teria lido Fourteen Lessons in Yogi Philosophy and Oriental Occultism, de Yogi Ramacharaka; mais tarde, já como Indra Devi, tornou-se aluna de Krishnamacharya. Isso demonstra o alcance extraordinário de Atkinson e mostra que um de seus livros esteve, por assim dizer, biograficamente presente no círculo de Krishnamacharya (GOLDBERG, 2015; GREEN, 2015).

Mas o que exatamente esse fato prova? Prova circulação e proximidade social. Não prova que Devi tenha comentado a Krishnamacharya sobre o exercício VII de outro livro de Atkinson, nem sequer que o tenha discutido com ele. Além disso, Kraler observa que Krishnamacharya desestimulou Devi a ensinar práṇáyáma e que os exercícios respiratórios publicados por ela em 1953 se parecem com Stebbins e Atkinson, mas isso também pode refletir as leituras anteriores e independentes da própria Devi (KRALER, 2022, pp. 428–429). A pista é relevante; a conclusão direta não é autorizada.

1981: Iyengar estabiliza o viloma moderno

Em Light on Práṇáyáma, publicado originalmente em 1981, B. K. S. Iyengar sistematiza viloma como respiração interrompida na inspiração ou na expiração, distribuindo a prática em estágios (IYENGAR, 1983 [1981], pp. 146–151). Seus usos de anuloma e pratiloma, por sua vez, dizem respeito principalmente às combinações entre inspirar ou expirar pelas duas narinas e fazê-lo por narinas parcialmente controladas (pp. 194–202).

NomeTexto atribuído a KrishnamacharyaIyengar
AnulomaInspiração segmentada; expiração contínuaInspiração pelas duas narinas; expiração com controle nasal
VilomaInspiração contínua; expiração segmentadaInspiração ou expiração interrompida
PratilomaInspiração e expiração segmentadasInspiração com controle nasal; expiração pelas duas narinas

Kraler considera muito provável que a estrutura básica do livro de Iyengar esteja ligada ao Yoga Makaranda II, embora reconheça que o acesso de Iyengar ao manuscrito é hipótese e que ele ampliou profundamente o material com sua própria experiência (KRALER, 2022, pp. 401–403). O ponto seguro é a relação de família entre as taxonomias; o caminho material exato continua aberto.

Foi a difusão mundial de Iyengar que estabilizou a associação entre viloma e respiração interrompida. Depois disso, olhar para uma inspiração dupla e dizer “isso é viloma” tornou-se natural. Historicamente, contudo, estamos aplicando retrospectivamente a taxonomia de 1981 a um gesto documentado sob outros nomes desde 1888.

Efeito pizza — com algumas ressalvas

Agehananda Bharati cunhou “efeito pizza” na página 271 e desenvolveu sua aplicação ao caso hindu na página 273: um elemento cultural viaja, é transformado e valorizado fora de seu ambiente de origem e retorna com prestígio renovado (BHARATI, 1970, pp. 271, 273). A metáfora serve muito bem a esta história, desde que não a simplifiquemos.

O movimento que as fontes deixam ver é aproximadamente este:

  1. um exercício de cultura vocal e física chamado natural packing é impresso nos Estados Unidos;
  2. Stebbins o converte em técnica psicofísica com imaginação mental e expiração repousante;
  3. Atkinson o reembala como saber de um “Yogi Ramacharaka”;
  4. o livro e seus congêneres circulam internacionalmente, inclusive na Índia;
  5. Yogendra incorpora de modo documentável o Packing Breath a seu programa, depois chamado prāṇāyāma;
  6. no ambiente associado a Krishnamacharya, a respiração interrompida recebe uma taxonomia sânscrita nova, cuja fonte declarada é um texto hoje inacessível;
  7. Iyengar reorganiza essa taxonomia e a difunde globalmente;
  8. o público contemporâneo reconhece uma inspiração dupla como prática antiga porque a conhece por seu nome sânscrito tardio.

Isso tem “cara” de efeito pizza, mas não é uma pizza de mão única. O práṇáyáma, a alternância nasal, as retenções, a fisiologia sutil e o próprio prestígio do asceta indiano são componentes efetivamente indianos e muito anteriores. Stebbins e Atkinson já trabalhavam em um Ocidente que havia recebido ideias indianas por traduções, teosofia, Vedánta e contato com professores asiáticos. Quando Yogendra e outros pioneiros indianos adotaram cultura física e higiene respiratória ocidentais, fizeram-no sob condições coloniais e dentro de projetos próprios de reforma, ciência e nacionalização do Yôga. O produto final é uma coprodução desigual, não uma invenção pura de um lado seguida de cópia servil do outro.

Ainda assim, a reembalagem comercial de Atkinson merece ser chamada pelo nome. Um autor norte-americano, escondido atrás de um pseudônimo indianizado e de uma editora que ele próprio ajudou a construir, apresentou exercícios modernos de seu ambiente como ensinamentos favoritos de yôgis. É um caso evidente de apropriação de autoridade cultural. O fato de autores indianos posteriormente absorverem partes desse material não apaga a operação; ao contrário, mostra como uma representação orientalista pode entrar no circuito e ajudar a remodelar a própria tradição que alegava apenas descrever.

Um circuito lateral torna o padrão ainda mais visível. O “Yogi Cleansing Breath” de Atkinson se aproxima fortemente do “Lung-Sweeper” de Kofler; por sua vez, o curso por correspondência publicado na Índia por T. R. Sanjivi, em 1925, incorporou de modo documentável o exercício de limpeza de Ramacharaka (KRALER, 2022, pp. 412–413). Essa rota não prova a passagem do packing inspiratório para Krishnamacharya, mas mostra que a yoguização de exercícios da cultura respiratória ocidental e sua reentrada na Índia não ocorreram uma única vez.

Então, onde a técnica nasceu?

Kofler não altera a resposta à pergunta central: em 1887 ele documenta um repertório vizinho, não o packing inspiratório. Se “nascer” significa a primeira formulação impressa conhecida desta família técnica, a resposta provisória é: no ambiente norte-americano de treinamento da voz e cultura física, com o natural packing de Edmund Shaftesbury, em 1888. Se a pergunta é quando surgiu a sequência completa de pequenas inspirações acumuladas mais uma expiração longa e repousante, a melhor resposta é: em The Packing Breath de Genevieve Stebbins, em 1892. Se perguntamos quando ela passou a ser apresentada como Yôga, a data é 1903, com Yogi Ramacharaka/William Walker Atkinson. Se perguntamos quando sua entrada no Yôga indiano pode ser demonstrada, temos Sri Yogendra em 1932. E se perguntamos quando a respiração segmentada ganhou os nomes anuloma, viloma e pratiloma, chegamos ao documento sem data segura atribuído a Krishnamacharya, provavelmente dos anos 1930 ou início dos 1940, seguido pela sistematização internacional de Iyengar em 1981.

O que não temos é um texto indiano antigo chamando de viloma uma inspiração segmentada, nem uma prova de que o Packing Breath de Stebbins derive de um práṇáyáma pré-moderno perdido. Também não temos prova direta de que Krishnamacharya tenha copiado Atkinson. A hipótese de transmissão é plausível e possui contexto; a genealogia inteira, porém, só é documental até Yogendra. Daí em diante, a história do gesto e a história do nome se aproximam, mas ainda não se encaixam sem folga.

Talvez esta seja a conclusão mais interessante. A modernidade de uma técnica não a torna falsa, inútil ou “menos Yôga”. Tradições vivas sempre selecionam, traduzem e inventam. O problema começa quando uma inovação ganha autoridade por meio de uma antiguidade não demonstrada e quando a investigação histórica é confundida com desrespeito a tradição. Kofler torna a cautela metodológica ainda mais nítida: antecedente não é origem, semelhança não é transmissão e nome sânscrito não é certificado de antiguidade. Reconhecer a circulação real não empobrece o Yôga; apenas substitui uma genealogia mítica, lisa demais, por uma história humana muito mais rica; feita de encontros, empréstimos, disputas, silêncios e rebatismos.

Referências

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Milton Marino

Professor do DeROSE Method há mais de trinta anos, é médico por formação (FCM Santa Casa – SP) e dirige a unidade Verbo Divino desde 2001.

Em sua trajetória, dedicou-se à pesquisa e prática das Filosofias da Índia e à anatomia, fisiologia e comportamento humano, áreas em que atua com rigor técnico e excelência, tendo ministrado cursos para mais de 2 mil pessoas em Paris, Londres, Lisboa, Buenos Aires, Medellin, São Paulo e Curitiba.Hoje, se dedica ao magistério com o foco no desenvolvimento de instrutores, bem como à escrita de sua obra SwáSthya Yôga Bháshya.