Quando o de fora vira de dentro: a dissolução da fronteira emic/etic na experiência contemporânea dos mantras

Tempo de leitura: 10 min No estudo antropológico, existem dois conceitos absolutamente fundamentais para compreender como uma cultura interpreta as suas próprias práticas: as perspectivas emic e etic. A perspectiva emic refere-se à visão interna dos participantes, isto é, à forma como os próprios praticantes entendem, explicam e vivenciam uma determinada prática cultural. Já a perspectiva etic corresponde ao olhar externo do pesquisador, que procura analisar aquela prática a partir de categorias analíticas como linguagem, cognição, ritual, performance, psicologia ou organização social (PIKE, 1967). Essa distinção, formulada originalmente pelo linguista Kenneth Pike e amplamente difundida na antropologia interpretativa, pressupõe a existência de uma fronteira estável entre dois domínios: o da experiência vivida e o da análise conceitual. Acontece que, no estudo contemporâneo das práticas meditativas, o que se observa é justamente o contrário: essa fronteira está cada vez mais porosa. As interpretações que nasceram como análise externa passam, aos poucos, a ser incorporadas pelos próprios praticantes como parte da sua experiência vivida. E este movimento merece a nossa atenção. No contexto dos mantras, uma interpretação emic afirma que o mantra desperta kuṇḍaliní, purifica o karma, ativa centros sutis ou produz transformação espiritual. Tais afirmações fazem parte da lógica interna da tradição e da maneira como o praticante vive a sua experiência. A interpretação etic, por sua vez, analisa o mantra como técnica de regulação da atenção, sincronização respiratória, reorganização cognitiva ou indução de estados alterados de consciência. O pesquisador, neste caso, procura compreender os efeitos da prática sem necessariamente assumir a ontologia tradicional que a sustenta. Historicamente, o universo emic dos mantras articulava-se em torno de conceitos como shakti, vibração sagrada, presença divina, purificação kármica e atuação sobre o corpo sutil. O mantra não era compreendido apenas como linguagem, mas como potência operativa! A sua eficácia derivava da própria estrutura sonora, da repetição ritual, da transmissão iniciática e da integração entre som, corpo, respiração e consciência. Aqui vale lembrar a leitura de Tim Ingold, segundo a qual percepção e conhecimento não são processos que acontecem dentro de um sujeito isolado, mas emergem do engajamento contínuo do praticante com um ambiente saturado de sentido (INGOLD, 2000). O mantra, nesse registro, não é objeto de crença: é modo de habitar o mundo. Com o desenvolvimento da antropologia, da neurociência, da psicologia cognitiva e dos estudos da linguagem ritual, surgiram interpretações etic que buscavam explicar os efeitos dos mantras em termos não necessariamente religiosos. O mantra passou então a ser descrito como mecanismo de reorganização atencional, estabilização mental, modulação respiratória ou tecnologia cognitiva de transformação perceptiva. Em Frits Staal, o foco desloca-se do significado semântico para a estrutura operacional do ritual, chegando à provocação de que o ritual seria, em si mesmo, sem sentido, sustentado apenas pela sua própria sintaxe interna (STAAL, 1996). Stanley Jeyaraja Tambiah, por seu turno, aproxima a eficácia ritual da performatividade linguística desenvolvida por J. L. Austin, na qual a linguagem não apenas descreve o mundo, ela produz efeitos dentro dele (TAMBIAH, 1968; AUSTIN, 1962). Aqui, todavia, precisamos fazer uma pausa importante. Quando o pesquisador descreve o mantra como técnica cognitiva, mecanismo de regulação atencional ou tecnologia de transformação perceptiva, ele acredita estar produzindo uma análise neutra, livre de pressupostos religiosos. Talal Asad, em obras como Genealogies of Religion (1993) e Formations of the Secular (2003), nos mostra, contudo, que essa pretensa neutralidade é uma ilusão historicamente construída (ASAD, 1993; ASAD, 2003). As próprias categorias com as quais o antropólogo opera, religião, crença, ritual, experiência interior, símbolo, significado, não são universais nem inocentes; elas foram forjadas dentro de um processo muito específico: a Reforma Protestante e a constituição posterior do secularismo moderno europeu. A Reforma deslocou o eixo da religiosidade do ritual externo, do gesto corporal, do sacramento, da liturgia repetida, para o âmbito da crença interior, da fé pessoal, da consciência individual diante de Deus. Depois, com o iluminismo, esse modelo foi naturalizado e exportado mundo afora como se fosse o paradigma universal do que é conexão com o sagrado. E aí está o ponto delicado para a nossa discussão sobre o mantra. Quando o discurso etic separa o que o mantra faz no cérebro daquilo que o praticante acredita sobre o mantra, quando distingue mecanismo neurofisiológico de conteúdo simbólico, ou técnica de devoção, ele já está aplicando uma grade conceitual de origem protestante, ainda que esteja convicto da sua neutralidade científica. Essa separação entre exterior técnico e interior emocional, entre corpo objetivamente descritível e fé subjetivamente vivida, não é uma divisão natural da realidade, é um recorte cultural. A tradição mântrica original simplesmente não opera com essa cisão! No mantra, vibração sonora, gesto, respiração, presença divina e estado de consciência formam um continuum indissociável, no qual não faz sentido perguntar onde termina a técnica e onde começa a devoção, onde acaba o corpo e onde começa a crença. O ato de pronunciar ôṁ não é, para o praticante tradicional, nem um exercício respiratório com efeitos colaterais espirituais, nem uma crença subjetiva com efeitos colaterais fisiológicos: é uma operação integral, na qual som, corpo e absoluto se atualizam ao mesmo tempo. Portanto, quando a ciência contemporânea descreve o mantra como tecnologia cognitiva, ela não está apenas oferecendo uma análise externa, ela está, sem perceber, traduzindo a prática para dentro de um vocabulário que pressupõe a separação protestante entre interior e exterior, entre crença e técnica. E o aspecto mais relevante de tudo isso é que essas interpretações externas não permaneceram confinadas ao meio acadêmico. Elas passaram a circular através de livros, cursos, terapeutas, professores de meditação, podcasts, aplicativos de mindfulness, blogs, discursos de bem-estar e espiritualidade contemporânea, professores de yôga e até mesmo neste blog! Conceitos originalmente etic foram sendo progressivamente absorvidos pelo universo experiencial dos próprios praticantes. Hoje, é comum encontrar praticantes que afirmam simultaneamente que o mantra ativa chakras, estimula o nervo vago, sincroniza padrões neurais e reduz a atividade mental compulsiva. Esse sincretismo discursivo não é, como se poderia supor à primeira vista, mera confusão categorial ou ecletismo superficial. Trata-se de um modo de