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DO “PACKING BREATH” AO VILOMA

Como uma técnica moderna ganhou um passado antigo – Parte 1 O Nascimento de uma investigação Durante uma de minhas aulas semanais da Imersão Filosófica, ministrada a instrutores de Yôga e a praticantes antigos ou avançados, surgiu uma pergunta inusitada: o que eu sabia a respeito das técnicas respiratórias que vinham circulando nas redes sociais? Entre elas estavam o cyclic sighing, ou suspiro cíclico — uma inspiração seguida de uma segunda tomada de ar, geralmente menor, antes de uma expiração prolongada —, e a cyclic hyperventilation with retention, uma forma de hiperventilação cíclica acompanhada por retenção após a expiração, cuja expressão moderna mais conhecida provavelmente é o método associado a Wim Hof. A pergunta me surpreendeu por duas razões. A primeira foi a nomenclatura, tão diferente daquela com a qual trabalho há décadas que imediatamente me sugeriu um processo de reempacotamento: práticas respiratórias recebiam novos nomes, eram separadas de seus contextos e reapresentadas como produtos contemporâneos. A segunda foi perceber que, por não acompanhar de perto as redes sociais, eu não sabia que técnicas pouco usuais nos textos do Yôga hindu, sobretudo pelo emprego recorrente da boca como via de expiração, estavam circulando como se constituíssem um novo padrão respiratório e começavam a ser reincorporadas ao próprio universo do Yôga. Eu sabia que o método de Wim Hof era frequentemente aproximado do tummo tibetano. Contudo, já havia lido algumas vezes o texto sobre a produção do “calor psíquico” reunido por W. Y. Evans-Wentz e não me recordava de encontrar nele aquela expiração rápida pela boca. Minha memória, como pude confirmar depois, estava correta: a obra descreve tanto as respirações suaves quanto as vigorosas pelas narinas e esclarece que, mesmo no momento em que o ar é lançado “como uma flecha”, a expiração ocorre pelas duas narinas (Evans-Wentz, 1999, p. 187–193). Esse pequeno detalhe não eliminava a possibilidade de outras execuções em diferentes linhagens tibetanas, mas já impedia que a respiração bucal fosse apresentada como característica universal do tummo. Ao mesmo tempo, lembrei-me de um artigo que minha querida amiga e aluna Luciana havia me enviado alguns meses antes. Produzido por pesquisadores vinculados à Stanford University e publicado em 2023 na revista Cell Reports Medicine, o estudo de Balban et al., intitulado Brief structured respiration practices enhance mood and reduce physiological arousal, comparava quatro práticas: mindfulness meditation, cyclic sighing, box breathing e cyclic hyperventilation with retention. Embora o artigo apresentasse resultados interessantes, sua nomenclatura e a execução das técnicas haviam me causado o mesmo estranhamento. À primeira vista, o cyclic sighing lembrava uma forma bastante reduzida de vilôma pránáyáma; a hiperventilação cíclica com retenção após a expiração parecia combinar elementos de bhastriká com shúnyaka; e a box breathing, com suas quatro fases de igual duração, aproximava-se do nosso chaturanga pránáyáma. Isso não significava, evidentemente, que fossem as mesmas técnicas. Uma semelhança formal não demonstra identidade histórica, muito menos transmissão direta. Mas as correspondências eram fortes o bastante para suscitar uma pergunta: estaríamos diante de antigas práticas do Yôga traduzidas para a linguagem da pesquisa científica, de reinvenções independentes, de adaptações recentes ou de técnicas modernas que, depois de reformuladas e comercializadas, estavam sendo reincorporadas ao Yôga como se sempre houvessem pertencido a ele? Foi somente durante a investigação que o suspiro cíclico me conduziu a uma família anterior de exercícios conhecida como Packing Breath. Cyclic sighing e Packing Breath não são nomes equivalentes nem designam execuções perfeitamente idênticas. O segundo, porém, oferecia uma pista histórica surpreendente para compreender como a acumulação de duas ou mais inspirações, seguida por uma expiração longa e repousante, havia circulado entre cultura vocal, ginástica, ocultismo, New Thought e Yôga moderno. No momento da aula, entretanto, eu ainda não tinha essas respostas. Vi-me diante dos alunos com mais dúvidas do que certezas e decidi iniciar uma investigação paralela: de onde haviam vindo esses termos? Quando essas técnicas apareceram pela primeira vez? Qual era a relação delas — se é que havia uma relação historicamente demonstrável — com o Yôga e com o pránáyáma? E em que momento uma semelhança de execução passou a ser tratada como prova de uma origem antiga? A pesquisa acabou rendendo esta série de três artigos. Reconheço que o primeiro ficou demasiadamente longo para os padrões de um blog. Ainda assim, tenho a convicção de que, se você me acompanhar até o final, ampliará consideravelmente sua compreensão não apenas dessas técnicas respiratórias, mas da própria história do Yôga moderno, dos processos de apropriação e reapropriação cultural, daquilo que se convencionou chamar de “efeito pizza” e, sobretudo, dos cuidados necessários antes de transformar uma semelhança técnica em continuidade histórica. A conclusão, antes da investigação Quando se olha apenas para a forma, o “suspiro cíclico” estudado por Melis Yilmaz Balban e seus colegas — uma inspiração, uma segunda inspiração menor que completa o enchimento dos pulmões e uma expiração prolongada — realmente lembra aquilo que muitos praticantes contemporâneos chamariam de viloma na inspiração. O parentesco visual, porém, esconde uma história terminológica bem menos linear. A conclusão mais rigorosa a que as fontes permitem chegar é esta: a mais antiga descrição impressa do packing inspiratório que localizei dentro desta linhagem não aparece em um tratado indiano de Yôga, mas em um manual norte-americano de treinamento vocal e físico de 1888. Um ano antes, contudo, Leo Kofler já registrara, no mesmo ambiente de cultura vocal, um repertório aparentado, sobretudo uma expiração fracionada, que ajuda a reconstruir a pré-história técnica, apesar de ainda não ser o packing inspiratório. Genevieve Stebbins lhe deu, em 1892, a forma quase completa que reconhecemos hoje: pequenas inspirações acumuladas sem perda de ar, seguidas por uma expiração longa e repousante. Em 1903, William Walker Atkinson reproduziu uma sequência extraordinariamente próxima, vestiu-a de autoridade oriental e a publicou sob o pseudônimo “Yogi Ramacharaka”. Em 1932, Sri Yogendra incorporou de maneira documentável o Packing Breath de Stebbins a um manual indiano de métodos respiratórios que depois seriam reunidos sob o nome de “Yogendra “Yogendra Práṇáyáma”. O que ainda não se pode demonstrar é a