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O Desenvolvimento da Transliteração do Sânscrito — Parte III

Da Filologia à Experiência: a Romanização entre Academia, Biblioteca e Tradições Esotéricas

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Ao longo do século XX, especialmente entre as décadas de 1920 e 1970, a romanização do sânscrito entra em uma fase de consolidação que, embora menos marcada por inovações formais do que o período anterior, revela-se decisiva para sua fixação como prática internacional. Se, no século XIX, o problema central consistia em como representar adequadamente os sons do sânscrito em caracteres latinos, neste momento a questão desloca-se para um plano distinto, no qual a preocupação dominante passa a ser a estabilização, a difusão e a adaptação desses sistemas a contextos institucionais diversos. O problema deixa de ser apenas técnico e passa a envolver a circulação do conhecimento, a organização de acervos e a transformação do próprio estatuto da língua sânscrita no mundo moderno (HALBFASS, 1988; POLLOCK, 2006).

No âmbito acadêmico, o sistema que viria a ser conhecido como IAST consolida-se progressivamente como padrão dominante nas publicações filológicas, nas edições críticas e nas gramáticas. Seu uso sistemático por autores como Whitney e Macdonell permite que o sânscrito seja estudado em universidades europeias e norte-americanas sem a necessidade imediata do domínio do dêvanágarí, funcionando como uma espécie de língua gráfica intermediária, que preserva com razoável precisão as distinções fonéticas da língua original ao mesmo tempo em que se torna acessível a um público formado dentro da tradição alfabética latina (MACDONELL, 1910; WHITNEY, 1889). Nesse contexto, a romanização deixa de ser uma solução provisória e passa a constituir uma infraestrutura intelectual estável, indispensável à consolidação da indologia como campo acadêmico internacional.

Paralelamente a esse processo, desenvolve-se uma dimensão menos visível, mas igualmente determinante: a incorporação do sânscrito aos sistemas bibliográficos ocidentais. A expansão dos acervos, a circulação de manuscritos e a produção crescente de edições impressas exigem métodos de catalogação que permitam a identificação, organização e recuperação das obras. Nesse contexto, sistemas como o ALA-LC, desenvolvidos no âmbito da American Library Association e da Library of Congress, desempenham papel central ao estabelecer normas de transliteração que tornam possível a integração de textos em sânscrito aos catálogos internacionais (ALA-LC, 1997). A romanização, aqui, assume uma função documental: ela não apenas representa a língua, mas viabiliza o acesso ao conhecimento, operando como interface entre tradições escritas distintas e sistemas modernos de classificação.

Esse movimento não pode ser dissociado das transformações políticas do período. A independência da Índia, em 1947, introduz uma nova camada de complexidade ao problema da romanização, na medida em que a padronização de nomes próprios, documentos e referências geográficas passa a assumir importância administrativa em um Estado recém-formado. O sistema associado a William Wilson Hunter, herdado do período colonial, continua a ser utilizado em larga escala, sobretudo em contextos oficiais, sendo progressivamente ajustado por meio da introdução de sinais diacríticos que aproximam sua forma das convenções acadêmicas (HUNTER, 1871; KING, 1999). A substituição do acento agudo pelo mácron para indicar o comprimento vocálico evidencia uma tentativa de conciliar simplicidade operacional e precisão fonológica, ainda que de forma parcial. A romanização torna-se, assim, instrumento de governo, articulando língua, território e administração em um contexto de reorganização política.

No entanto, a transformação mais significativa desse período ocorre fora do ambiente acadêmico e administrativo. A partir das primeiras décadas do século XX, observa-se a emergência de um novo campo de circulação do sânscrito, no qual a língua deixa de ser apenas objeto de estudo e passa a ser incorporada a práticas espirituais, filosóficas e pedagógicas voltadas ao público ocidental. Esse movimento não se dá de forma homogênea, mas envolve diferentes atores e tradições, que operam com graus variados de fidelidade à estrutura original da língua.

Um dos vetores iniciais desse processo encontra-se na Sociedade Teosófica, fundada por Helena Petrovna Blavatsky e posteriormente desenvolvida por Annie Besant, na qual conceitos sânscritos passam a ser mobilizados em um contexto universalista, frequentemente desvinculado das exigências filológicas que caracterizavam o campo acadêmico (BLAVATSKY, 1888; BESANT, 1905). Termos como karma, ātman e mantra são incorporados a um vocabulário espiritual global, no qual a precisão fonética e a correspondência rigorosa com o original deixam de ser prioritárias. A romanização, nesse contexto, assume uma função pragmática: tornar pronunciáveis e reconhecíveis palavras que passam a circular fora de seu ambiente linguístico originário.

Esse processo é aprofundado pela atuação de Swami Vivekananda, cuja apresentação do Vedānta ao público ocidental contribui decisivamente para a difusão de termos sânscritos em contextos filosóficos e religiosos mais amplos (VIVEKANANDA, 1896). Ao deslocar o foco da erudição para a experiência, Vivekananda introduz uma nova forma de relação com o sânscrito, na qual a linguagem não é apenas analisada, mas vivida. A romanização passa a desempenhar um papel intermediário entre o texto e a prática, permitindo que conceitos complexos sejam transmitidos a um público que não domina as estruturas fonéticas da língua original.

Na sequência, ao longo da primeira metade do século XX, a difusão do Yôga por figuras como Paramahansa Yogananda e, posteriormente, por Swami Sivananda e seus discípulos, amplia esse movimento, consolidando o uso do sânscrito em contextos pedagógicos e práticos (YOGANANDA, 1946; SIVANANDA, 1935). Nesse ambiente, a romanização sofre uma inflexão decisiva: enquanto o meio acadêmico busca preservar as distinções fonéticas por meio de sistemas diacríticos rigorosos, os contextos de ensino e prática privilegiam formas mais acessíveis, capazes de orientar a pronúncia de maneira intuitiva. Grafias como “Shiva”, “Yoga” e “Atman” tornam-se predominantes não por sua precisão, mas por sua eficácia comunicativa.

Essa diferença não deve ser interpretada como erro ou degradação, mas como adaptação funcional a contextos distintos. O que se observa é a emergência de duas lógicas paralelas de romanização: uma voltada à análise científica da língua, outra à sua transmissão prática. A primeira exige precisão, estabilidade e correspondência sistemática; a segunda privilegia legibilidade, memorização e aplicabilidade. Ambas operam sobre o mesmo objeto, mas respondem a finalidades diferentes.

É justamente essa duplicidade que explica a persistência de múltiplos sistemas de transliteração ao longo do século XX. Longe de convergir para uma única solução, a romanização do sânscrito passa a se organizar como um campo plural, no qual diferentes padrões coexistem e se sobrepõem. O IAST mantém sua posição como referência acadêmica, enquanto sistemas simplificados continuam a ser utilizados em contextos pedagógicos, espirituais e editoriais (POLLOCK, 2006).

Essa coexistência não representa uma falha de padronização, mas a expressão de uma característica estrutural do próprio problema. A língua sânscrita, ao ser deslocada de seu contexto original e inserida em múltiplos ambientes culturais, deixa de cumprir uma única função. Ela é, simultaneamente, objeto de estudo, instrumento de prática, elemento simbólico e veículo de transmissão de conhecimento. Nenhum sistema de romanização é capaz de atender plenamente a todas essas dimensões.

Nesse sentido, a história da transliteração do sânscrito, ao longo do século XX, revela menos um processo de convergência do que uma multiplicação de usos. A romanização deixa de ser apenas uma técnica de representação e passa a constituir uma interface dinâmica entre mundos distintos, mediando não apenas a linguagem, mas formas de experiência, modos de pensamento e práticas culturais.

Fontes:

ALA-LC.
ALA-LC Romanization Tables: Transliteration Schemes for Non-Roman Scripts. Washington: Library of Congress, 1997.

BESANT, Annie.
An Introduction to Yoga. London: Theosophical Publishing Society, 1905.

BLAVATSKY, Helena Petrovna.
The Secret Doctrine. London: Theosophical Publishing Company, 1888.

HALBFASS, Wilhelm.
India and Europe: An Essay in Understanding. Albany: State University of New York Press, 1988.

KING, Richard.
Orientalism and Religion: Postcolonial Theory, India and “The Mystic East”. London: Routledge, 1999.

MACDONELL, Arthur Anthony.
A Sanskrit Grammar for Students. Oxford: Clarendon Press, 1910.

POLLOCK, Sheldon.
The Language of the Gods in the World of Men. Berkeley: University of California Press, 2006.

SIVANANDA, Swami.
Practice of Yoga. Rishikesh: Divine Life Society, 1935.

VIVEKANANDA, Swami.
Raja Yoga. New York: The Baker and Taylor Company, 1896.

WHITNEY, William Dwight.
Sanskrit Grammar. Cambridge: Harvard University Press, 1889.

YOGANANDA, Paramahansa.
Autobiography of a Yogi. New York: Philosophical Library, 1946.

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Milton Marino

Professor do DeROSE Method há mais de trinta anos, é médico por formação (FCM Santa Casa – SP) e dirige a unidade Verbo Divino desde 2001.

Em sua trajetória, dedicou-se à pesquisa e prática das Filosofias da Índia e à anatomia, fisiologia e comportamento humano, áreas em que atua com rigor técnico e excelência, tendo ministrado cursos para mais de 2 mil pessoas em Paris, Londres, Lisboa, Buenos Aires, Medellin, São Paulo e Curitiba.Hoje, se dedica ao magistério com o foco no desenvolvimento de instrutores, bem como à escrita de sua obra SwáSthya Yôga Bháshya.