Os Jesuítas e o Encontro com uma Língua que Ainda Não Precisava Ser Transliterada
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Entre os primeiros ocidentais a empreender um estudo sistemático do sânscrito e de suas formas gráficas, destacam-se os missionários jesuítas que, a partir do século XVII, estabeleceram-se em diferentes regiões do subcontinente indiano. Formados na tradição gramatical latina e na lógica escolástica europeia, esses estudiosos encontraram na Índia não apenas uma língua estrangeira, mas um sistema linguístico cuja sofisticação técnica não apenas rivalizava com as tradições clássicas europeias, mas, em certos aspectos, as ultrapassava, sobretudo no que diz respeito à descrição fonética (HALBFASS, 1988). Esse encontro, no entanto, não pode ser compreendido como um episódio isolado, mas deve ser situado em um contexto histórico mais amplo, marcado pela expansão marítima europeia e pela constituição dos primeiros circuitos globais de comércio e circulação de conhecimento. A partir do final do século XV, com as navegações portuguesas e a abertura da rota marítima para a Índia por Vasco da Gama em 1498, o subcontinente indiano passa a integrar diretamente o sistema econômico europeu (SUBRAHMANYAM, 1997; BOXER, 1969), e a presença portuguesa em Goa e em outras regiões costeiras estabelece não apenas entrepostos comerciais, mas também centros de atuação missionária, nos quais a linguagem rapidamente se torna um problema central.
A Companhia de Jesus, fundada em 1540, desempenha papel decisivo nesse processo, não apenas como instrumento de expansão religiosa, mas como um verdadeiro dispositivo de mediação cultural, linguística e intelectual (O’MALLEY, 1993). Diferentemente de outras ordens, os jesuítas desenvolveram uma estratégia de inserção que pressupunha o aprendizado aprofundado das línguas locais e o acesso direto às tradições eruditas, o que, no caso da Índia, implicava necessariamente o contato com o sânscrito, língua associada à produção filosófica, à tradição ritual e à formação das elites letradas (HALBFASS, 1988). Nesse ponto, observa-se uma inflexão significativa na relação entre o europeu e o mundo extraeuropeu: a compreensão deixa de ser mediada exclusivamente por relatos indiretos e passa a depender de um engajamento direto com os sistemas linguísticos locais, deslocando o estudioso da posição de observador externo para a de aprendiz inserido, ainda que de forma parcial, em uma tradição que lhe é inicialmente estranha.
Nesse cenário, a tradução não surge como um problema teórico autônomo, mas como uma exigência prática decorrente da necessidade de comunicação, de interlocução com eruditos locais e de compreensão dos sistemas religiosos e jurídicos vigentes. No entanto, esse processo revela rapidamente seus limites, pois não se trata apenas de transpor palavras entre línguas distintas, mas de estabelecer correspondências entre universos conceituais profundamente heterogêneos. A tradução, nesse contexto, deixa de ser um exercício filológico no sentido estrito e passa a constituir uma forma de mediação intelectual, na qual o próprio ato de compreender implica uma reorganização das categorias de pensamento disponíveis ao tradutor (HALBFASS, 1988). Ao mesmo tempo, a circulação desses conhecimentos na Europa contribui para a reconfiguração mais ampla dos modos de produção do saber, na medida em que o encontro com tradições textuais altamente desenvolvidas desafia os esquemas classificatórios vigentes, inserindo-se em um movimento mais amplo de reorganização epistemológica que será posteriormente tematizado por autores como Michel Foucault (1966) e Edward Said (1978).
É nesse ambiente que se insere a figura de Heinrich Roth (1620–1668), cuja trajetória ilustra de forma exemplar a primeira fase desse encontro. Estabelecido em Agra, um dos principais centros do Império Mughal, Roth teve acesso direto a círculos eruditos e, ao que tudo indica, recebeu instrução em sânscrito junto a paṇḍits indianos (HALBFASS, 1988; DESHPANDE, 1993). Esse dado é particularmente relevante, pois indica que seu aprendizado não se limitou a uma observação externa da língua, mas ocorreu no interior de uma tradição viva de transmissão. Sua obra, conhecida como Grammatica Linguae Sanscretanae, composta entre aproximadamente 1654 e 1662, baseia-se no Sárasvata-vyákaraṇa e apresenta uma descrição detalhada da fonética, da morfologia e de aspectos sintáticos do sânscrito (DESHPANDE, 1993). Redigida em latim e acompanhada de exemplos em dêvanágarí, essa gramática evidencia um esforço de tradução conceitual para o universo europeu, sem, contudo, romper com a estrutura interna da tradição indiana. É particularmente significativo que Roth não desenvolva um sistema de romanização: a escrita original permanece como meio indispensável de acesso à língua, o que indica que o problema da transliteração ainda não havia se constituído como uma questão histórica autônoma (HALBFASS, 1988).
Um estágio subsequente desse processo pode ser observado na obra de Jean-François Pons (c. 1698–1752), ativo no início do século XVIII (ROCHER, 1984). Atuando em regiões sob influência francesa, como Pondicherry, Pons produz uma gramática anterior à década de 1730 que se distingue pelo uso parcial da escrita bengali para a representação do sânscrito. Essa escolha não é trivial, pois evidencia a pluralidade gráfica da língua e a ausência de padronização entre os próprios europeus. O sânscrito não era ainda concebido como uma língua a ser convertida sistematicamente para o alfabeto latino, mas como um sistema que exigia mediação através das escritas índicas disponíveis. Ao mesmo tempo, sua atividade epistolar contribui para a transmissão de informações sobre o sânscrito para a Europa, desempenhando um papel importante na formação do interesse erudito que, nas décadas seguintes, culminaria na institucionalização da indologia (ROCHER, 1984; HALBFASS, 1988).
Essa aproximação atinge um grau ainda mais elevado com Johann Ernst Hanxleden (1681–1732), cuja inserção no contexto cultural indiano se caracteriza por uma imersão linguística mais ampla. Estabelecido no sul da Índia, especialmente na região de Kerala, Hanxleden domina diversas línguas locais, incluindo o sânscrito, o malayáḷam e o tâmil, e sua gramática, redigida em latim e baseada na escrita Grantha-Malayáḷam, reflete tanto a adaptação ao contexto regional quanto a continuidade da dependência das escritas índicas. A precisão de suas descrições e sua tentativa de sistematizar o sânscrito para o leitor europeu evidenciam um nível avançado de compreensão da língua, sendo sua influência particularmente perceptível na obra de Paulinus a Sancto Bartholomaeo, cujo Sidharubam (1790), primeira gramática sânscrita impressa na Europa, baseia-se amplamente em seus manuscritos (ROCHER, 1984). Ainda assim, como em Roth e Pons, não se observa uma tentativa de romanização sistemática, o que confirma que o problema da transliteração ainda não se impunha como questão central.
Essa ausência de preocupação com a romanização torna-se ainda mais significativa quando considerada à luz da própria natureza da língua sânscrita no interior da tradição indiana. Longe de se apresentar apenas como um instrumento de comunicação, o sânscrito constitui um meio de preservação e transmissão do conhecimento ritual, filosófico e técnico, no qual a precisão da articulação sonora desempenha papel fundamental. Na recitação dos Vêdas, por exemplo, a exatidão fonética não é um elemento acessório, mas condição de validade do próprio ato ritual (STAAL, 1989; PADOUX, 1990). Os sistemas gráficos empregados para sua escrita refletem essa exigência ao estabelecer correspondências sistemáticas entre fonemas e grafemas, de modo que a escrita não apenas registra, mas codifica a estrutura sonora da língua.
É precisamente nesse ponto que se delineia, ainda de forma implícita, o problema que, nas gerações seguintes, levará ao desenvolvimento de sistemas de romanização. A questão fundamental não é simplesmente como escrever o sânscrito com caracteres latinos, mas como representar, em um sistema gráfico distinto, uma língua cuja estrutura está intrinsecamente ligada à sua realização sonora e a tradições gráficas próprias. No período aqui considerado, contudo, esse problema ainda não se apresenta de forma autônoma. O esforço europeu dirige-se antes à compreensão interna da língua e à mediação cultural direta, preparando o terreno para a posterior formalização filológica da transliteração.
Visto retrospectivamente, o que caracteriza essa primeira fase não é a tentativa de adaptação do sânscrito ao alfabeto latino, mas a ausência dessa tentativa. Os jesuítas não procuram converter a língua, mas compreendê-la em seus próprios termos, o que implica reconhecer, ainda que de forma parcial, a autonomia de sua estrutura e de sua tradição. A romanização, tal como será formulada nos séculos seguintes, não nasce, portanto, como uma solução técnica prévia, mas como consequência de um deslocamento histórico mais amplo, no qual o sânscrito passa a circular fora de seu contexto original e a ser apropriado por leitores que já não têm acesso direto às suas formas de escrita.
É nesse deslocamento que o problema emerge. Não como uma questão meramente gráfica, mas como um sintoma de algo mais profundo: o encontro entre dois modos distintos de organizar a linguagem e, em última instância, o próprio conhecimento.
Fontes
AUFRECHT, Theodor.
Catalogus Catalogorum. Leipzig: Brockhaus, 1868.
BOXER, Charles Ralph.
The Portuguese Seaborne Empire, 1415–1825. London: Hutchinson, 1969.
DESHPANDE, Madhav M.
Sanskrit and Prakrit: Sociolinguistic Issues. Delhi: Motilal Banarsidass, 1993.
FOUCAULT, Michel.
Les mots et les choses. Paris: Gallimard, 1966.
HALBFASS, Wilhelm.
India and Europe: An Essay in Understanding. Albany: State University of New York Press, 1988.
O’MALLEY, John W.
The First Jesuits. Cambridge: Harvard University Press, 1993.
PADOUX, André.
Vac: The Concept of the Word in Selected Hindu Tantras. Albany: State University of New York Press, 1990.
ROCHER, Rosane.
Orientalism, Poetry, and the Millennium: The Checkered Life of Nathaniel Brassey Halhed. Delhi: Motilal Banarsidass, 1984.
SAID, Edward Wadie.
Orientalism. New York: Pantheon Books, 1978.
SUBRAHMANYAM, Sanjay.
The Career and Legend of Vasco da Gama. Cambridge: Cambridge University Press, 1997.
STAAL, Frits.
Rules Without Meaning: Ritual, Mantras and the Human Sciences. New York: Peter Lang, 1989.