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Quando o Yôga Não é Terapia: Entre a Regulação e a Desorganização da Consciência

Uma análise entre tradição, neurociência e experiência real de prática

Tempo de leitura: 10 minutos

Há uma ideia amplamente difundida no imaginário contemporâneo de que o Yôga cura. Cura a ansiedade, o estresse, a depressão, o corpo rígido, a mente dispersa. Em sua versão mais comercial, tornou-se quase um sinônimo de bem-estar universal, uma espécie de panaceia moderna validada por estudos, redes sociais e relatos pessoais. Mas essa narrativa, embora sedutora, é incompleta. A tradição nunca afirmou que o Yôga é, por definição, terapêutico. Quando observamos os textos clássicos com atenção, percebemos algo mais sofisticado e, ao mesmo tempo, mais desconfortável: o Yôga é uma tecnologia de modulação da consciência. E, como toda tecnologia potente, pode tanto organizar quanto desorganizar o sistema psíquico.

No Yôga Sútra, Patañjali define: yôgaś chittavṛtti nirôdhaḥ. O Yôga é a suspensão das flutuações da mente. Não há aqui qualquer promessa de relaxamento, prazer ou conforto. O termo central é nirôdha, derivado da raiz rudh, que significa conter, restringir, bloquear, associado ao prefixo ni, que intensifica essa ação. Trata-se de um processo de contenção ativa, não de alívio passivo. O Yôga não busca apenas acalmar a mente no sentido popular, mas intervir estruturalmente nos padrões de funcionamento mental. E toda intervenção profunda em sistemas complexos carrega riscos. Essa é uma dimensão frequentemente esquecida: o Yôga não é neutro [PATAÑJALI, Yoga Sūtra I.2].

Do ponto de vista da neurociência, práticas como meditação, prāṇāyāma e técnicas de atenção produzem alterações mensuráveis no organismo. Há modulação do sistema nervoso autônomo, mudanças nos padrões respiratórios e nos níveis de dióxido de carbono, alterações na atividade de redes cerebrais e influência sobre neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina. Essas mudanças podem ser organizadoras, mas não são intrinsecamente estáveis. Os mesmos mecanismos que promovem regulação podem, em determinados contextos, precipitar instabilidade. Técnicas respiratórias intensas podem levar à hiperventilação e a alterações do equilíbrio fisiológico. Práticas de introspecção profunda podem reduzir a ancoragem perceptiva no ambiente. Estados prolongados de atenção interna podem amplificar conteúdos mentais latentes [BRITTON et al., 2021].

A prática de meditação, do Yôga e de técnicas respiratórias como o práṇáyáma, assim como sistemas correlatos como o Qi-Gong, pode induzir estados excepcionais de consciência que, em certos indivíduos, precipitam ou exacerbam condições psiquiátricas. Há relatos de surgimento de quadros psicóticos agudos com sintomas polimórficos, envolvendo confusão, delírios frequentemente megalomaníacos e de conteúdo místico, comportamento desorganizado e alucinações auditivas e visuais. No caso do Qi-Gong, há inclusive uma categoria diagnóstica conhecida como “síndrome do desvio do Qi-Gong”, caracterizada por alterações severas no pensamento, comportamento e percepção análogas às da esquizofrenia [LEE et al., 2010]. Estados dissociativos também são comuns, incluindo despersonalização e desrealização, nos quais o indivíduo experimenta distorções da realidade, sensação de deslocamento, confusão mental e desorientação [LINDDAHL et al., 2017].

Paradoxalmente, técnicas frequentemente buscadas para relaxamento podem desencadear ansiedade. Há descrições de ataques de pânico induzidos pelo relaxamento, reações paradoxais de tensão, irritabilidade, medo intenso e desespero. No campo do humor, a literatura descreve tanto episódios depressivos quanto ideias suicidas, além de sentimentos exacerbados de culpa, negativismo, perda de motivação vital e, no extremo oposto, estados de euforia [SCHLOSSER et al., 2019]. Em alguns casos, práticas de respiração e meditativas podem precipitar crises epilépticas [JASEJA, 2006]. Além disso, essas técnicas podem amplificar traços de personalidade preexistentes, especialmente em indivíduos com tendências obsessivas ou esquizoides. Esses efeitos adversos tendem a ocorrer em contextos de prática intensa, com longos períodos de meditação ou respiração controlada, frequentemente associados a isolamento sensorial, privação de sono ou jejum. Um dado importante é que, quando há intervenção clínica adequada, esses quadros agudos costumam regredir [BRITTON et al., 2021].

Nem todos os indivíduos respondem da mesma forma a essas práticas. Existem fatores claros de risco. A prática intensa e prolongada é um dos principais, especialmente quando envolve muitas horas seguidas ou retiros extensos. A privação de sono e o jejum afetam diretamente o funcionamento cerebral, prejudicando a recuperação de neurotransmissores e favorecendo confusão mental, desrealização e alucinações. A privação sensorial, como o isolamento em ambientes de silêncio absoluto e estímulos reduzidos, pode levar o cérebro a interpretar erroneamente sinais internos, fenômeno conhecido como desaferentação, favorecendo alucinações e ideias delirantes [LINDDAHL et al., 2017]. Do ponto de vista estrutural, indivíduos com traços de personalidade esquizotípicos ou obsessivos apresentam maior vulnerabilidade, assim como aqueles com transtornos psiquiátricos prévios, nos quais a prática pode precipitar descompensações agudas.

Há também um elemento psicológico fundamental relacionado ao grau de organização do senso de identidade. Para atravessar estados profundos de alteração de consciência sem se desorganizar, o indivíduo precisa ter um senso relativamente estável de si mesmo. Caso contrário, a experiência pode romper o contato com a realidade. Essa ideia é sintetizada na máxima de que é necessário ser alguém antes de tentar tornar-se ninguém, uma formulação que dialoga diretamente com as advertências de Jung sobre os riscos de práticas místicas em indivíduos sem estrutura psíquica consolidada [JUNG, 2012].

A própria estrutura tradicional do Yôga indica a necessidade de progressão. Os oito membros não são uma lista arbitrária, mas uma sequência funcional que começa pela estabilização do comportamento e do modo de vida, passa pelo corpo, pela respiração e só então alcança estados mais sutis da mente. Ignorar essa progressão é intervir em um sistema ainda instável, aumentando o risco de efeitos adversos.

Se a dimensão psíquica já exige cautela, a dimensão física não é menos crítica. Embora o Yôga seja frequentemente apresentado como seguro, há uma quantidade significativa de lesões documentadas. Flexões e torções extremas do pescoço, especialmente em posições invertidas, podem comprometer as artérias vertebrais, reduzindo o fluxo sanguíneo cerebral e, em casos graves, levando a acidentes vasculares cerebrais, com consequências como paralisia, perda de coordenação e síndrome de Horner [FISHMAN et al., 2009]. Há também relatos de danos neurológicos periféricos, como compressão do nervo ciático em posições mantidas por longos períodos em alguns ásanas como o Vajrásna, resultando em dormência permanente e dificuldades motoras.

Lesões musculoesqueléticas são frequentes, incluindo fraturas de costelas em torções, ruptura do tendão de Aquiles, degeneração de quadril, lesões em ombros, joelhos e coluna, hérnias de disco e rompimentos do manguito rotador [Cramer et al., 2013]. Técnicas respiratórias intensas, como o Kapálabháti, podem levar a situações extremas como pneumotórax, com colapso pulmonar [Mohan et al., 2016]. Posições invertidas aumentam a pressão ocular, podendo causar danos à retina, além de estarem associadas a problemas cervicais e, em casos extremos, compressão da medula espinhal. No campo psicológico, já se apontava que práticas avançadas podem atingir camadas profundas da psique e, em indivíduos instáveis, desencadear estados psicóticos intensos [JUNG, 2012].

As contraindicações são claras. Pessoas com hipertensão, diabetes ou cefaleias persistentes devem evitar técnicas respiratórias intensas. Indivíduos com fragilidade estrutural não devem realizar posições que sobrecarreguem a coluna cervical. A prática em ambientes superaquecidos aumenta o risco de lesões, pois o calor gera uma falsa sensação de flexibilidade, levando ao alongamento excessivo de ligamentos e instabilidade articular. Há ainda um ponto pouco discutido: muitas formas de Yôga moderno foram estruturadas para corpos já condicionados. Indivíduos sedentários, ao entrarem nesse sistema sem adaptação adequada, tornam-se particularmente vulneráveis a lesões [BLACK, 2010].

O Yôga, portanto, não é uma prática inofensiva. Ele é uma tecnologia de reorganização da experiência humana que atua simultaneamente sobre corpo, respiração e mente. Isso não o torna perigoso por definição, mas o torna potente. E potência exige responsabilidade, contexto, progressão e discernimento. Talvez o problema não esteja no Yôga em si, mas na forma como foi simplificado e transformado em produto, desvinculado das condições que historicamente sustentavam sua prática. A questão que permanece não é se o Yôga faz bem, mas se estamos preparados para lidar com aquilo que ele realmente faz

Bibliografia

BLACK, Glenn. The Risks and Rewards of Yoga. The New York Times, 2010.

BRITTON, Willoughby et al. Defining and measuring meditation-related adverse effects in mindfulness-based programs. Clinical Psychological Science, 2021.

CRAMER, Holger et al. Injuries and other adverse events associated with yoga practice: a systematic review. Journal of Alternative and Complementary Medicine, 2013.

FISHMAN, Loren et al. Yoga injuries: a review of the literature. International Journal of Yoga Therapy, 2009.

JASEJA, Harinder. Meditation may predispose to epilepsy. Medical Hypotheses, 2006.

JUNG, Carl Gustav. A psicologia do kundalini yoga. Petrópolis: Vozes, 2012.

LEE, Min-Sun et al. Qigong-induced mental disorders: a review. American Journal of Psychiatry, 2010.

LINDDAHL, Jared et al. The varieties of contemplative experience. PLoS ONE, 2017.

MOHAN, Madanmohan et al. Physiological effects of Kapalabhati pranayama. International Journal of Yoga, 2016.

PATAÑJALI. Yoga Sūtra. Diversas edições.

SCHLOSSER, Michael et al. Unpleasant meditation-related experiences in regular meditators. PLoS ONE, 2019.

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Milton Marino

Professor do DeROSE Method há mais de trinta anos, é médico por formação (FCM Santa Casa – SP) e dirige a unidade Verbo Divino desde 2001.

Em sua trajetória, dedicou-se à pesquisa e prática das Filosofias da Índia e à anatomia, fisiologia e comportamento humano, áreas em que atua com rigor técnico e excelência, tendo ministrado cursos para mais de 2 mil pessoas em Paris, Londres, Lisboa, Buenos Aires, Medellin, São Paulo e Curitiba.Hoje, se dedica ao magistério com o foco no desenvolvimento de instrutores, bem como à escrita de sua obra SwáSthya Yôga Bháshya.