É necessário começar desembrulhando o problema com cuidado, porque o que está em jogo aqui não é uma explicação superficial da mente, mas uma mudança real na forma como se compreende a própria experiência humana. Trata-se de um material denso, daqueles que, quando bem assimilados, dão a sensação de que algo “encaixou” de forma definitiva.
A proposta é colocar frente a frente duas tradições que, à primeira vista, parecem distantes: o Yôga e a psicologia ocidental. No entanto, quando observadas com atenção, percebe-se que ambas estão tentando responder exatamente à mesma pergunta: de onde nasce o sofrimento humano e por que ele persiste?
Ao avançar nessa investigação, surge uma constatação desconfortável: a maior parte das nossas ações, dos nossos desejos e até de certas tensões físicas aparentemente banais não está sob controle consciente. E isso não é uma descoberta recente. Muito antes da psicologia moderna, essa percepção já estava presente em textos antigos. Nos Vêdas, por exemplo, impulsos incontroláveis, como acessos de raiva, eram descritos como demônios ou possessões.
À primeira vista, essa explicação pode parecer ingênua. Mas, se traduzida para uma linguagem contemporânea, ela se revela surpreendentemente precisa: trata-se da experiência de algo interno que simplesmente toma o controle da consciência.
No Ocidente, esse reconhecimento foi sendo construído de forma gradual até se consolidar naquilo que se convencionou chamar de três grandes feridas narcísicas da humanidade. A primeira, com Copérnico, mostrou que não somos o centro do universo. A segunda, com Darwin, revelou que não somos uma criação separada, mas parte de uma continuidade biológica com os outros animais. A terceira, proposta por Freud, é a mais perturbadora: o ser humano não é dono da própria mente.
Freud traduz essa ideia através de uma imagem extremamente clara: a mente como uma casa. A consciência, aquilo que chamamos de “eu”, ocupa a sala de estar; organizada, iluminada, pronta para receber visitas. No entanto, no porão dessa casa, existe uma força muito mais primitiva operando: o id, composto por impulsos básicos como desejo, agressividade e busca por prazer.
Entre a sala e o porão, há um “segurança armado”: o superego, que representa a moral, as regras sociais, aquilo que pode ou não subir para a consciência.
Essa imagem permite compreender um dos mecanismos mais importantes da mente: o recalque.
Imagine um desejo intenso surgindo; um desejo que, ao mesmo tempo, é inaceitável. Por exemplo, algo que viola normas sociais ou familiares profundas. O impulso emerge do “porão”, mas imediatamente o superego bloqueia sua passagem. O ego, incapaz de sustentar esse conflito, resolve o problema da única forma possível: empurra o conteúdo de volta para baixo e fecha a porta.
O desejo desaparece da consciência.
Mas apenas da consciência.
A energia continua lá.
E essa é a parte mais interessante: essa energia não desaparece, ela retorna disfarçada. Pode se transformar em antipatia inexplicável, em irritação, em comportamentos aparentemente sem causa. A pessoa não reconhece a origem, mas vive o efeito.
Freud, no entanto, ainda trabalha no nível do inconsciente individual. Jung amplia esse modelo de forma radical. Ele propõe que esses “porões” não são isolados, mas estão conectados por uma camada mais profunda — como se houvesse um lençol freático psíquico ligando todos os seres humanos.
Esse é o inconsciente coletivo.
Nesse nível, existem padrões universais chamados arquétipos, que estruturam a experiência humana.
Um deles é a sombra: tudo aquilo que o indivíduo rejeita em si mesmo. Impulsos, agressividade, instintos. Mas há um ponto essencial aqui: essas forças não são simplesmente negativas. Elas foram fundamentais para a sobrevivência da espécie. O problema não é a existência da sombra, mas a tentativa de negá-la. Quando isso acontece, ela passa a agir pelas “costas” da consciência, de forma indireta e muitas vezes destrutiva.
Outro arquétipo importante é o par ânima e ânimos, que ajuda a explicar aquelas paixões intensas e aparentemente irracionais. Situações em que a lógica aponta em uma direção, mas a pessoa segue outra, como se estivesse sendo conduzida por algo maior. É como se um padrão antigo, ancestral, assumisse o controle momentaneamente; uma espécie de “hack” da consciência.
Já a persona corresponde à máscara social. E aqui a analogia contemporânea é inevitável: o perfil cuidadosamente editado nas redes sociais. Uma versão construída, filtrada, muitas vezes distante da realidade íntima. O problema não é usar essa máscara — ela é necessária para a vida em sociedade. O problema surge quando o indivíduo passa a acreditar que ele é essa máscara.
A partir desse ponto, fica evidente uma diferença fundamental entre as abordagens.
A psicologia ocidental, em geral, busca organizar essa “casa”. Tornar o ego mais funcional, mais adaptado à realidade. O Yôga segue uma direção completamente diferente: ele não busca organizar a casa, mas revelar que o indivíduo não é a casa.
Na base filosófica do Yôga, especialmente no Sáṁkhya, existe uma distinção central entre consciência pura (Purusha) e tudo aquilo que é mutável (Prakṛti), incluindo a mente. O sofrimento surge quando a consciência se identifica com esses processos.
Uma analogia simples ajuda a compreender isso: é como confundir o motorista com o carro. Quando o carro é danificado, a pessoa sofre como se ela própria estivesse quebrada. O Yôga propõe reconhecer que o motorista permanece intacto, independentemente das condições do veículo.
O mecanismo que constrói essa identificação é o ahaṃkára, o “fazedor do eu”, responsável por criar a sensação de individualidade. E, de forma sutil, essa construção é sustentada pela própria linguagem, que divide e nomeia a realidade, criando fronteiras onde antes havia continuidade.
A questão que surge, então, é prática: como acessar essas camadas profundas da mente?
A psicologia tradicional utiliza a fala. O Yôga utiliza o corpo e a meta cognição
Uma imagem ajuda a esclarecer isso: a consciência é como um pequeno barco na superfície de um oceano, enquanto o inconsciente corresponde às correntes profundas. Dar ordens ao barco não altera o movimento das águas. É necessário atuar nas correntes.
E essas correntes passam pelo corpo.
Wilhelm Reich observou que tensões musculares crônicas correspondem a conteúdos emocionais reprimidos. O corpo, nesse sentido, funciona como um arquivo. Um “cofre” onde experiências não processadas ficam armazenadas.
Assim, quando uma prática de Yôga promove o relaxamento profundo de uma região do corpo, não se trata apenas de um efeito físico. É como se uma gaveta fosse aberta. Emoções podem emergir, memórias podem surgir de forma inesperada. Isso não é aleatório. É liberação.
O mesmo ocorre com a respiração. Técnicas de práṇáyáma não são apenas exercícios mecânicos. Elas alteram o funcionamento do sistema nervoso, modificam padrões de atividade cerebral e abrem acesso a estados mais profundos da mente.
O trabalho com mantra atua em outra dimensão. A linguagem cotidiana está carregada de expectativa. Quando se pensa em algo desejável, o cérebro antecipa recompensa, gerando tensão. O mantra rompe esse ciclo. Ao utilizar sons que não ativam associações imediatas, ele interrompe o padrão de antecipação e induz estados de maior estabilidade interna.
Esse processo, no entanto, não é necessariamente suave.
À medida que conteúdos reprimidos emergem e padrões antigos deixam de ser sustentados, pode haver um período de instabilidade. Mudanças bruscas, decisões inesperadas, reconfigurações profundas na vida. Do ponto de vista externo, isso pode parecer desorganização. Internamente, muitas vezes é um processo de reorganização mais profunda.
No final, o que se revela é uma compreensão ampliada da mente humana.
Ela não é plenamente controlada, nem totalmente consciente. Mas existem caminhos para explorá-la.
A psicologia oferece um mapa conceitual.
O Yôga oferece uma tecnologia prática.
E, talvez, o ponto mais importante seja reconhecer que essas abordagens não se excluem. Elas podem, na verdade, se complementar, oferecendo diferentes formas de acessar, compreender e transformar aquilo que, até então, operava de forma invisível.
Esse conteudo foi baseado no Curso Yôga e psicologia que será novamente ministrado no DeRose Method Santos no dia 26/04/2026 as 10:30. Se voce tiver interesse entre em contato com Nati Areco no telefone (13) 99137-4917
Bibliografia:
BALLANTYNE, Rudolf; RAMA, Swami. Yoga e psicoterapia. Honesdale: Himalayan Institute, [s.d.].
FORNSTEN, Georg. The psychology of yoga. Londres: Routledge, [s.d.].
WHORF, Benjamin Lee. Language, thought, and reality: selected writings of Benjamin Lee Whorf. Cambridge: MIT Press, 1956.
JUNG, Carl Gustav. The psychology of yoga and meditation. Princeton: Princeton University Press, 1996.
JUNG, Carl Gustav. The psychology of kundalini yoga: notes of the seminar given in 1932. Princeton: Princeton University Press, 1996.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
DESIKACHAR, T. K. V.; KRUNCH, Hilfried. Freud and yoga: two philosophies of mind compared. Nova York: North Point Press, 2005.
REICH, Wilhelm. The function of the orgasm. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 1973.
REICH, Wilhelm. O éter, Deus e o diabo. São Paulo: Martins Fontes, 2003.