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Mais do que real: o mantra entre a ciência e a vivência

Tempo de leitura: 10 min Há uns dias, mergulhado num livro denso e provocador, Explaining Mantras, de Robert Yelle, vi-me diante de uma daquelas questões que atravessam toda a minha vida de praticante e de estudioso: afinal, por que o mantra funciona, e o que significa, exatamente, dizer que ele funciona? Pois esta é uma pergunta que não se deixa responder com facilidade, e que me conduziu, ao longo de muitas noites, por um caminho que partiu da semiótica, passou pela neurociência, atravessou a antropologia de Tim Ingold e desembocou, vejam só, precisamente onde toda prática começa e termina: na experiência viva de quem recita. Comecemos pelo enigma, na sua forma mais crua. Imaginemos que eu peça a alguém que repita, centenas de vezes, uma sequência de sílabas que, ao primeiro olhar, nada parecem significar: oṃ hríṃ klíṃ. Para a mentalidade moderna, treinada num ceticismo que se tornou quase um reflexo, isso soa como superstição, ou, na melhor das hipóteses, como um truque psicológico inofensivo. E foi exatamente essa a tradição de leitura que dominou os estudos ocidentais sobre mantras por mais de um século, oscilando entre dois polos igualmente redutores: ou os mantras são destituídos de sentido, e portanto não merecem exame sério, ou são uma espécie de ilusão retórica engenhosamente construída, cuja eficácia é apenas aparente. Robert Yelle, e faço questão de reconhecê-lo, é o mais sofisticado desses leitores. Ele não despacha os mantras como tolice; ao contrário, demonstra, com uma erudição que admiro, que eles possuem uma arquitetura poética riquíssima, feita de aliterações, palíndromos, repetições, enumerações exaustivas do alfabeto, correspondências minuciosas entre som e cosmos. Todavia, a conclusão a que ele chega me incomodou desde a primeira leitura, e quanto mais avançava no livro, mais o incômodo se adensava. Para Yelle, toda essa beleza formal serve, no fim das contas, para produzir uma ilusão: a ilusão de que a linguagem está naturalmente conectada à realidade, quando, segundo ele, essa conexão simplesmente não existe. O mantra, nessa leitura, não passa de uma máquina retórica refinada, que nos persuade de uma eficácia que ele não possui. Vejamos, então, por que penso que ele acerta na descrição e erra no veredito, pois a distinção é sutil e decisiva. O problema de Yelle não reside naquilo que ele vê, mas naquilo que ele pressupõe antes mesmo de olhar. Ele herda de Ferdinand de Saussure, o pai da linguística moderna, a tese de que o signo é arbitrário, ou seja, de que não há nenhuma conexão necessária entre a palavra “cavalo” e o animal que ela designa, tanto que cada idioma emprega um som diferente para a mesma coisa. Até aqui, nada a objetar; isso é verdadeiro para a imensa maioria do nosso vocabulário. Acontece que, a partir desse pressuposto, Yelle dá um salto e conclui que toda aparência de conexão entre som e sentido é, no fundo, ilusória, um mero disfarce retórico. E é exatamente nesse ponto que a ciência contemporânea o desmente, e o desmente de maneira espetacular. Em 2016, um grupo de pesquisadores liderado por Damián Blasi publicou na PNAS, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo, um estudo que analisou os vocabulários de dois terços de todas as línguas do planeta. O que encontraram foi notável: associações sistemáticas e robustas entre determinados sons e determinados significados, associações que atravessam famílias linguísticas que nunca tiveram contato umas com as outras (Blasi et al., 2016). Em outras palavras, a não-arbitrariedade não é a exceção curiosa que confirma a regra; ela é uma propriedade universal da linguagem humana. Muitos de vocês talvez conheçam o célebre experimento batizado de “bouba/kiki”. Mostre a qualquer pessoa, de qualquer cultura, duas formas, uma delas arredondada e suave, a outra pontuda e angular, e pergunte qual se chama “bouba” e qual se chama “kiki”. A esmagadora maioria, e isso inclui crianças que ainda não aprenderam a ler e pessoas cegas de nascença, associa “bouba” à forma redonda e “kiki” à forma pontiaguda (Ćwiek et al., 2022). Mais ainda: pesquisas recentes demonstram que esse efeito se enraíza em propriedades físicas reais dos objetos e dos sons (Margiotoudi et al., 2022). Não se trata, portanto, de convenção, mas de participação. O som “kiki”, com suas oclusivas agudas e secas, partilha algo da própria qualidade do que é pontudo. Ora, se isso vale para “bouba” e “kiki”, por que não valeria para o mantra? Quando a tradição tântrica articula “ha” no fundo da garganta e “sa” na frente da boca, e nos ensina que ha é a inspiração e o outro a expiração, ela não está realizando uma associação arbitrária que depois se disfarça de natural. Ela está percebendo, e cultivando, uma correspondência real entre o gesto articulatório e o processo respiratório. O fonema “ha” não representa a expiracão; ele é a expiração tornada audível. Mas deixemos por ora as cores e as formas, e dirijamo-nos ao corpo de quem pratica, pois aqui a evidência se torna ainda mais contundente. O neurocientista James Hartzell, ele próprio um devotado estudioso do sânscrito, examinou o cérebro de pandits védicos, aqueles eruditos que, desde a infância, memorizam e recitam volumes imensos de textos sagrados. Valendo-se da ressonância magnética, comparou o cérebro desses recitadores com o de pessoas comuns, e o que encontrou foi assombroso: os pandits exibiam mais de dez por cento a mais de massa cinzenta em regiões ligadas à memória verbal, ao processamento fonológico e ao controle cognitivo, além de um hipocampo visivelmente aumentado (Hartzell et al., 2016). Hartzell batizou o fenômeno de “Efeito Sânscrito”. A repetição vocal, feita com precisão fonética e ritmo, remodela fisicamente o cérebro. Reparem no peso disso para o nosso debate! A forma do mantra, aquela mesma estrutura poética que Yelle classifica como pura retórica, produz mudanças orgânicas, estruturais, mensuráveis. Não é ilusão; é neuroplasticidade. E há ainda outro achado, talvez mais belo. Um estudo conduzido por Aviva Berkovich-Ohana e colaboradores demonstrou, por meio de ressonância magnética funcional, que a simples repetição silenciosa de uma palavra, que é o cerne de toda prática